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Pensamentos soltos, talvez soltos demais, por única e exclusiva responsabilidade e falha do autor.

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CLIENTE ESPECIAL

Se a morte me chamar

não direi que não

se ela me tratar com carinho

e pagar a condução.

 

COTAÇÃO DO DIA

Governantes cruéis,

tempos tristes:

nunca meu passarinho comeu

piores alpistes.

 

HISTÓRIA

O Marquês de Oliveira –

um dos orgulhos nossos –

do que mais gostava

nas azeitonas

era dos seus caroços.

 

 

GEOCORPOGRAFIA

As regiões mais

agradavelmente salinas

costumam ser as sulinas.

 

LEGADO

Onde está o que prometi à poesia?

Onde estão as epopeias

que eu urdia

e as odes triunfais?

 

Não as fiz

não as farei mais

 

Chego ao fim

e meu legado

é uma dúzia de quadrinhas

seis tolas

seis tolinhas

e alguns sonetos

talvez bem metrificados demais.

 

ÉPOCA ÁUREA

Poetas de truz

transformavam em cisne

qualquer avestruz.

 

HAHAHA

Não tenho nada

tudo me falta

meu único pecúlio

é minha pressão alta.

 

PROCEDIMENTO

A situação está assim:

ou encompridamos nossos meios

ou encurtamos nossos fins.

 

ARRANJO

Numa tentativa de lirismo

o passarinho

pousa no poema concreto.

 

SIGNIFICADO

Morrer é uma atividade

da qual nós ainda não

fomos chamados a participar.

 

ANTES TARDE

Talvez o morto que seremos

nos reabilite

e nos justifique.

 

FOTOFOBIA

A maioria dos provérbios

não resiste

quando expostos ao sol.

 

NA CABEÇA DE QUEM CAIR

Quem cospe para cima

só não sai cuspido

se o salvar a rima.

 

SOBRIEDADE

Um poema concreto é comedido:

cai do alto da estante

e não se ouve um gemido.

 

PRESCRIÇÃO

Morrer de amor foi um uso

que de tanto ser usado,

reusado e reutilizado,

caiu em total desuso.

 

AUTOPERSUASÃO

Ainda hei de me convencer

de que não influíste em nada,

de que não és a culpada,

de que morri por morrer.

 

APARÊNCIA

Nem sempre um poema concretista

é muito mais do que pode sugerir

à primeira vista.