Um de meus hábitos mais antigos, além de respirar, é escrever. Fiz minhas primeiras experiências com a canetinha aos onze anos ou doze, por aí, com resultados que vêm sendo os mesmos, desde essa época: medíocres. E, quando digo medíocres, não estou exercendo aquilo que se chama de falsa modéstia. Nada disso: tudo que escrevi, em todo esse tempo, tem sido catastrófico – e disso os meus raros leitores aqui são testemunhas semanais. Ando pensando até em assinar as crônicas com um pseudônimo (alterando também, logicamente, a foto, porque hoje nem minha mãe, que me chamava de “meu loirinho lindo” enquanto me beliscava as bochechas, aprovaria esta minha cara).

Não foi por falta de empenho, certamente, nem de disciplina, que eu me tornei este escritor meia-boca. Eu era bem menino ainda e já lia tudo que me vinha às mãos – e o que não vinha, eu ia buscar. Eu não tinha dinheiro para frequentar livrarias e eram pouquíssimas as bibliotecas. Isso me aterrorizava. Eu sentia calafrios quando pensava que poderia chegar um dia no qual eu não encontraria nenhum livro para satisfazer o que já estava parecendo mais vício que costume.

Meu pai andava alarmado com minhas olheiras, e a suspeita de que eu estava em péssimo caminho se reforçou quando ele me apanhou lendo Crime e castigo na cama, tendo no criado-mudo, na fila de leituras, Os crimes da Rua Morgue.

Minha mãe – ah, as mães, quem haverá de louvá-las como merecem? – foi convencida por mim de que aquilo era um estágio necessário para eu me tornar um literato. Esse termo – literato – a impressionou e ela deve ter repassado essa importância ao meu pai, porque ele afrouxou a fiscalização.

Fiquei sossegado por um tempo, até a malfadada ocasião em que ele me flagrou lendo… O crime do padre Amaro! Nesse dia, depois de me submeter a um sermão, ele se lastimou: havia perdido a confiança em mim. Não entendia como um garoto normal e inteligente (palavras dele), podendo sonhar com profissões como a de médico, advogado ou engenheiro, resolvia resignar-se a ser um contador de histórias. Para encerrar a descompostura, me disse:

“O que você vê de importante em contar histórias? Qualquer um, qualquer pessoa, sabe contar uma história.”

Lembrando-me desse diálogo e fazendo um retrospecto do que consegui até agora, respondo agora ao meu pai, com um atraso de muitos anos:

“Não, pai, não é qualquer um, não.”

E conto aos leitores, pedindo-lhes sigilo, o meu pesadelo mais recorrente: estou numa bienal de literatura, com uma pilha de livros sobre a mesa, esperando que ao menos um deles interesse a alguém, quando – isso depois de meia hora – um menino se aproxima e diz:

“No ano passado li um livro seu.”

“Ah, é? Que honra! O que você achou?”

“Você gosta de escrever?”

“Claro”, respondo, tentando fazer cara de Machado de Assis.

“Então por que você não aprende?”