O amor é o gondoleiro, o mais moço de todos nesta manhã. Nós somos a jovem que ele transporta, possivelmente inglesa, dezessete ou dezoito anos. Viu muitos filmes, leu muitos livros e sentiu algumas vezes a inquietação que agora percorre seu corpo, essa umidade morna que por um instante atribui à brisa do Adriático. Talvez haja gaivotas, se houver gaivotas em Veneza, e oito ou nove delas farão um desenho que parecerá um coração no fundo azul.
O gondoleiro começa a cantar, e ela finge só perceber agora como são vigorosos seus braços e como seus cabelos e os pelos das axilas retêm o ouro do sol.
A voz seria comum, se não denunciasse em uma ou outra vogal uma incerteza ainda na transição para o timbre adulto.
Ela olha o mar, as outras gôndolas, o magnífico torso do gondoleiro e sente, nesse momento, o que jamais voltará a sentir com tanta agudeza e intensidade: a beleza da vida e sua fragilidade, sua vocação de fluir e escapar.
Nota que o momento único já lhe foge e, fechando os olhos, concentra-se em retê-lo o mais que puder, com a umidade quente que agora a envolve toda e a faz entrar num êxtase que é como um sonho no qual ela flutua sobre um mar que quase não se move e é ninada por uma voz que parece ser ora a de um homem, ora a de um menino que acaba de descobrir o amor.
O amor, todos os amores são assim: um dia em que uma série de pequenos encantos se une para um feitiço que, se vivermos cem anos, jamais se repetirá.