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Venho escrevendo há tanto tempo que já deveria ter aprendido. Sou um cronista medíocre, se tanto. Esforço-me, empenho-me, tento novos jeitos, parece que vou finalmente descobrir o caminho, mas…

Não sei quantas crônicas escrevi. Duas mil, talvez. E me lembro de só nove ou dez com as quais fiquei satisfeito. Em uma delas eu falava de uma figura que apareceu num ano extremamente longínquo na Biblioteca Mário de Andrade. Eu era  jovem e, com outros tolos da mesma idade, me preparava para revolucionar a literatura. Machado de Assis, Shakespeare e Proust seriam substituídos por nós, e os leitores não teriam motivos para sentir saudade de nenhum deles.

Não exagerarei se disser que morávamos na biblioteca. Nela e nos bares próximos, onde líamos, uns para os outros, nossas obras-primas. Um dia, surgiu como se tivesse caído do céu um tipo que se apresentou como Jesus e, para que não houvesse dúvida, acrescentou: Cristo.

Era interiorano no aspecto, nos modos e no sotaque. Passou a ser nossa sombra. Censurava o que líamos e o que bebíamos e nos dizia a todo instante que ao buscar a glória chegaríamos não a Estocolmo, para receber o Nobel, mas ao inferno, para arder na churrasqueira do Diabo.

Encarando-o como uma piada, uma fonte de boas gargalhadas, lhe pagávamos a água mineral e o sanduichezinho. Logo nos acostumamos com sua presença. Se ele demorava para iniciar um dos seus sermões, nós o provocávamos: Jesus, não tem ladainha hoje?

Ele passou a se tornar monótono. Seu assunto era sempre aquele: tinha como missão salvar a humanidade, começando por nós.  Com o tempo, já não lhe dávamos muita atenção, mas ele não deixou de nos acompanhar, na biblioteca e nos bares.

Uma noite, bebemos demais e, já não sei por qual motivo, fomos parar na Praça da República. (Havia Praça da República, naquele tempo.) Acredito que o álcool tivesse despertado todos os nossos demônios. Talvez estivéssemos cantando uma canção particularmente obscena. O certo é que nosso Jesus começou a nos criticar com uma veemência que nunca havia demonstrado.

Irritados, nós o agarramos e, como se houvéssemos planejado tudo, dissemos que estava na hora de ele provar que era Cristo. Íamos crucificá-lo. Deve ter sido boa nossa encenação, porque ele se pôs a debater-se e a pedir socorro. Como justificativa para essa covardia, ele gritava: “Sou Jesus, sou Jesus, mas ainda não estou preparado!”

Não sei se hoje há um lago na Praça da República. Naquela época havia, e foi para lá que o empurramos. A última imagem que tivemos dele foi seu espanto ao se ver cercado pelos patos. Gritava palavras que nunca imaginaríamos ouvir de um santo homem.