Histórias de amor sempre causam agito. Começa-se a contar uma, e quem ainda tem alguma consideração por esse velho sentimento já vai abrindo um sorriso e apressando: conta, conta logo, vai. E quem não é fanático resmunga: bah, tô fora, não quero ouvir, é sempre a mesma baboseira.
Gosto de histórias de amor. Talvez eu seja um pouco, talvez eu seja muito, talvez eu seja completamente antiquado. Não sei. A verdade é que me encantam lances românticos, como aquele protagonizado quase duzentos anos atrás pelo poeta Gonçalves Dias (o das palmeiras onde canta o sabiá).
Incorrigível amante das mulheres (mulherengo, num jargão mais atual), ele se dava inteiro quando se empenhava numa conquista. Usava todos os recursos da galanteria – nome que tinha antigamente a arte da cantada amorosa – e, às vezes, cometia o ato desleal de levar a decisão para a área poética, na qual era insuperável.
Uma noite, num baile, depois de namorar longamente com os olhos uma belíssima jovem, aproximou-se dela, com a intenção de convidá-la para dançar. Ao mesmo tempo que ele, chegou outro rapaz, com a mesma intenção.
A mulher ficou sem ação. Olhava para Gonçalves Dias, olhava para o outro, e não sabia como fazer para não magoar nenhum deles. Gonçalves Dias, num imortal gesto de galanteria, disse:

Senhora, já que podeis
Dizer não e dizer sim,
Dizei sim, mas não a ele,
Dizei não, mas não a mim.

Sinto desapontá-los. Os livros não contam o fim da história. Mas imagino que, se no instante seguinte a jovem mulher não estava dançando com Gonçalves Dias, essa foi uma das maiores injustiças da história da humanidade.