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Um poema que talvez tivesse mais sentido na rosada década de 1960, lido por um poeta de olhos tristes e flor na lapela.

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Brigam por isto

ou por isso

ou por aquilo

 

Brigam por isto

e por isso

e por aquilo

 

Desentendem-se

amuam-se

dizem-se coisas ásperas

e depois de dizê-las

juram: não

se falarão jamais

 

Um orgulho ferido

lhes dói irremediavelmente

(uma palavra mal empregada

um mal-entendido

um perfume de mulher

no colarinho

um nome de homem

anotado num bloquinho)

 

Estão já

no terceiro dia assim

e aos amigos dizem

que preferem morrer

a se reconciliar

 

Não temem a tentação –

dormiram juntos anteontem

ontem também

e também hoje dormirão

 

Resistirão mais uma vez

conseguirão novamente

sobrepor o orgulho ao amor

se quando a luz se apagar

a noite não for se deitar

entre ela e ele

com sua vocação alcoviteira

suas astúcias e

seus dedos de seda.