Quando Fernanda chegou à cozinha para tomar o café, antes de ir para o colégio, o pai e a mãe notaram que seu humor havia sofrido uma grande alteração da noite para o dia: tinha passado de mau para péssimo. Como todas as manhãs, ela não disse bom dia e não sorriu para os dois. Até aí, tudo normal. Mas logo vieram as novidades: primeiro o jeito brusco com que ela arrastou a cadeira para se sentar; depois, a malcheirosa palavrinha de cinco letras que ela pronunciou com raiva.

“Nandinha!”, exclamou a mãe, tão aturdida que não conseguiu dizer mais nada, embora uma porção de adjetivos nem um pouco lisonjeiros tivesse passado num segundo pelo seu cérebro.

“Você não vê que estamos comendo?”, perguntou com indignação e nojo o pai, tirando da boca um pedaço de pão com queijo que havia acabado de morder.

O irmão de Fernanda – que, como todos os dias, tinha ficado meia hora debaixo do chuveiro – entrou na cozinha nesse momento e, vendo a irritação do pai, mexeu com a irmã:

“Aprontando outra vez, Nandona?”

“Nandona é a ponte que te partiu”, explodiu Fernanda com todas as letras, deixando a mãe ainda mais estupefata, com essa ofensa, e o pai ainda mais furioso, com essa falta de respeito.

Enquanto a mãe decidia se chorava ou não chorava e o pai iniciava um discurso sobre as deficiências da educação moderna, Fernanda e o irmão trocavam caretas – a dele era zombeteira, a dela era de ódio.

A cena doméstica ficou um minuto assim, sem alterações. Depois o pai acabou o sermão, Fernanda e o irmão cansaram-se das caretas e a mãe, desistindo de cair no choro, resolveu conceder perdão à filha, como fazia sempre, e perguntou, como se nada tivesse acontecido:

“Não vai comer nada, Nandinha?”

“Não.”

“Mas precisa, filha. Já ontem você almoçou tão pouco e jantou tão mal… Você quer ficar doente?”

“Doente eu já estou, mãe. Ou você acha que esta gordura toda é saúde?”, respondeu Fernanda, levantando-se para exibir melhor o corpo.

“Gordura?”, interveio o pai. “Você anda é lendo muito essas revistas bobas. O que você quer ser? Essas magrelinhas que qualquer ventinho derruba?”

Estimulada pela ajuda do marido, a mãe de Fernanda apresentou o argumento que julgava ser definitivo:

“Você não é gorda, Nandinha. Você só acha que é.”

“Mãe, sabe qual é o problema? O problema é que os outros também acham.”

Nesse instante, o irmão de Fernanda, gargalhando, esclareceu:

“O problema não é esse, não, mãe. O problema é que o Lucas acha.”

“Lucas?”, estranharam a mãe e o pai.

“É. Lucas. Um panaca lá do colégio, que a Nandona está querendo conquistar”, disse o irmão de Fernanda, antes de ser atingido na cabeça por um pãozinho.