Bem na frente de casa funciona um colégio. Toda manhã acordo com o alvoroço juvenil, que disputa espaço com a algazarra dos bem-te-vis. Desde o início da Copa os decibéis subiram, o ar se encheu de gritos de Brasil e eu tenho despertado com tanta empolgação que às vezes imagino ver um bem-te-vi ou dois voando com a camisa do Neymar.
Num dia desses, no intervalo da segunda aula para a terceira, armou-se um jogo no pátio. Da janela, eu ouvia as exclamações de entusiasmo, de frustração, os xingamentos e os ruídos da bola batendo numa das paredes, ricocheteando na outra, subindo depois da valente rebatida de um zagueiro e aparecendo por um instante ao alcance dos meus olhos rejuvenescidos e fascinados.
Nesse dia, soou a campainha para o retorno às classes, mas o jogo continuou, com mais som ainda, e mais fúria. Uma voz forte, enérgica, se ouviu uma, duas, três vezes, mas a bola não parava de estrondear contra as paredes.
Finalmente a voz se impôs. Os garotos foram para as salas e eu, triste, fiquei olhando para o céu azul. Foi então que um dos bem-te-vis passou com sua camisa amarela, número 10, e preencheu o silêncio com um grito longo: Brasil.