Pego o café, ligo a tevê. As notícias de sempre. Roubaram, sequestraram, mataram. Uma banda irlandesa vem a São Paulo em janeiro, mas sem o guitarrista, que morreu em agosto. Não lembro bem, mas acho que era o melhor deles. Encontraram uma tela de Picasso que talvez não seja de Picasso. Houve passeatas pelo mundo, todas contra ou a favor de alguma coisa. Um tufão varreu a costa de não sei onde, um terremoto sacudiu uma cidade onde Judas perdeu as botas, cinco graus na escala Richter.
Dou um gole, e fico sabendo que não entregaram ainda aquele viaduto, nem aquele filme sobre o Chatô, embora as verbas já tenham sido todas gastas, como se verbas não fossem para se gastar. O TCU vai investigar o TCE. Será o contrário? Bom, deixa. Tanto faz. Uma atriz, em autobiografia, diz que o último marido bebia mais que os outros cinco juntos e, enquanto se exercitava sexualmente com ela, se incitava e se aplaudia: boa, Vadão, não fraqueja, vai firme, isso aí.
O mundo enlouqueceu, é o que eu vejo hoje, como já dizia minha mãe (e, antes dela, minha avó, que só falava de capetas e satanases). Uma garota chilena foi espancada pelas ex-amigas por ter atingido a marca de duzentos mil seguidores na internet. Um papagaio mexicano cantou dois trechos da Marselhesa num programa, com sotaque deliciosamente parisiense. Um adestrador mordeu a pata de um tigre que se recusou a participar de uma cena de filme em Hollywwod. Ou eu ouvi Bollywwod? No estômago de um metalúrgico catarinense foi encontrada numa operação de emergência uma moeda do tempo do Império.
Um cantor ganhou uma geladeira em um concurso de resistência em Toronto, interpretando por vinte e seis horas e quarenta e dois minutos La Cucaracha. Mas é o desvio de dinheiro, em todas as suas formas, que mais ocupa o espaço. Antes do último gole de café, tenho tempo de saber que descobriram um rombo de dois milhões numa estatal. Dois milhões? E isso é quantia para se noticiar? É engano, certamente. Devem ser dois bi. Se o pessoal da tevê não tomar cuidado, logo estarão falando de furtos a lanchonetes e à merenda escolar.
Furtar e roubar já são quase dois esportes olímpicos, aqui e no resto do mundo. Parece que não estamos fazendo feio. Temos evoluído. Por isso, às vezes, me vêm uns comentários como aqueles da Babá do Pé na Cova, do Falabella. Como seria bom acompanhar o noticiário aqui com ela e ir ouvindo: piranha, ladrão, safado, bandido, socorro!