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O rapaz destoa clamorosamente da sala imensa, atravancada de estantes abarrotadas de livros. No ambiente sombrio, dominado pela umidade e pelo mofo, ele chama a atenção como chamaria uma figurinha do Homem-Aranha colada por um garoto num Santo Antônio de igreja.

O que fazem esses olhos luminosamente verdes, esses cabelos loiríssimos, esse rosto juvenil num salão soturno de uma rua decadente? Não haveria lugar melhor para ele trabalhar? Que outro jovem de 18 anos gostaria de se dizer funcionário do Sebo Machado de Assis?

Aceito para um estágio sob a genérica designação de ajudante-geral, ele acabou substituindo um atendente sisudo que tirou férias. Está completando a primeira semana no emprego e sua total incompatibilidade com o mundo dos livros já provoca piadas.

Logo no primeiro dia, ele atendeu uma mulher que perguntou onde era a seção de didáticos.

“A senhora quer dizer livros?”

“É, livros didáticos.”

“Eu acho que… Seu Jarbas” – ele faz sinal a um atendente antigo que falava com um comprador -, “onde ficam os livros, os livros, os livros…”

“Didáticos”, completou a mulher.

“Pra mim, tudo é livro, tudo uma coisa só”, justificou-se o rapaz, pedindo desculpas, como se, com aqueles belos olhos verdes, pudesse ser acusado de alguma coisa.

Seu Jarbas apontou algumas estantes, no fundo, e o rapaz acompanhou a mulher até o lugar indicado.

“Estes então é que são os livros… os livros… os livros…”

“Didáticos.”

“Ah, é. Agora eu não esqueço mais”, ele sorriu. “Pode escolher à vontade.”

Enquanto a mulher percorria a estante, ele foi conversar com seu Jarbas, que, tendo acabado o atendimento que fazia, estava catalogando alguns livros chegados na véspera.

“Menino, você deixou a senhora sozinha lá? Mas que diabo de atendente você é? Eu vou lá.”

Antes que seu Jarbas fosse, a mulher chegou até os dois, com um livro de geografia, e perguntou se ali havia outro, do mesmo autor.

“Eu vendi o último na semana passada”, respondeu seu Jarbas. “Mas acho que posso arranjar um para senhora. Nós temos mais duas lojas, e um depósito. É só me deixar seu telefone, que eu entro em contato, ainda hoje. Qualquer coisa, a gente entrega na sua casa. Olhe, quer levar nosso cartão?”

Ele tirou o cartão de uma caixinha, observado pelo rapaz. Este, quando a compradora saiu, pegou também um cartão e o olhou muito curioso, como se nunca tivesse visto a placa na fachada da loja: Sebo Machado de Assis.

“Machado de Assis é o dono?

“Dono? Dono do quê?”

“Daqui do sebo.

Seu Jarbas deu uma gargalhada.

“Criatura de Deus, você sabe que o dono é o dr. Seixas. Não foi com ele que você falou na loja Centro? Não foi ele que te encaminhou para cá?”

“Não, foi o dirigente.”

Seu Jarbas explodiu em outra gargalhada.

“O gerente, você quer dizer. O Chuveirinho.”

“É um que, quando fala…”, o rapaz hesitou, “quando fala…”

“… quando fala, cospe para todos os lados.”

“Esse aí. Como é mesmo que o senhor falou que é o nome dele? Chaveirinho?”

Seu Jarbas estava gargalhando novamente quando uma mulher pálida se aproximou:

“Vocês têm livros sobre esoterismo?”

Seu Jarbas, tossindo depois de tantas gargalhadas, olhou para o rapaz:

“Você atende?”

“De turismo?” perguntou solicitamente o rapaz à mulher. “Aqueles de viagem, né?”

Seu Jarbas pegou o lenço. Agora estava chorando de tanto rir.