Ela se lembra de quando se importava com o amor. Foi há dez anos: estava com dezesseis. Ela abria a janela e, com a visão esplêndida do sol, vinha também a do garoto sorrindo na janela do sobradinho do outro lado da rua. Por coincidência, ele tinha dezesseis anos. Ela e ele se olhavam, se sorviam lentamente, sem um gesto, como duas estátuas destinadas pelo escultor a não fitarem nada senão uma à outra.

Encontravam-se depois – ou no portão da casa dele, ou no portão da casa dela. Iam para o colégio então. Não tinham desenvolvido ainda a linguagem que todo par de namorados vai descobrindo aos poucos, mas os sorrisos e os olhares lhes diziam o essencial: amavam-se.

Beijavam-se inocentemente no pátio, como dois passarinhos bicando a mesma migalha, e os colegas mais avançados em lances amorosos riam deles, tentando ensinar-lhes ousadias.

Um dia, ele veio com a notícia: dali a alguns meses o pai e a mãe, jornalistas, iam trabalhar numa revista recentemente lançada, num Estado longínquo. Ele jurou que se rebelaria, que ficaria morando ali com uma tia. Ela jurou que, se ele fosse com os pais, iria atrás dele.

Conservaram-se firmes nessa resolução de não se separarem, até que um dia, no aniversário dela, as duas famílias os convenceram a esperar dois anos. Quando atingissem os dezoito, poderiam casar-se, com a aprovação geral. Durante esse tempo estariam livres para visitar-se, desde que isso não atrapalhasse a rotina escolar.

 

Ela e ele protestaram, ameaçaram contrariar a vontade das famílias, mas um mês depois ele tinha se mudado com o pai e a mãe. Falavam-se pelo celular todo dia, a toda hora: eu te amo, eu também, vamos marcar um encontro logo que a gente puder.

Mas as ligações foram escasseando e eles não chegaram a marcar o encontro projetado para as férias escolares. Num dos raros telefonemas, ele mencionou uma Gláucia que parecia representar alguma coisa. Ela aproveitou para falar de Gilberto, que dava a impressão de ser um sujeito legal.

Pelo celular, ela viu a foto de Gláucia, e ele viu a foto de Gilberto. Felicitaram-se. E, como se fossem confiáveis na marcação de encontros, prometeram acertar um, do qual os quatro participariam.

Tudo isso foi há dez anos. Hoje ela se pegou lembrando dessas coisas todas. Há dois anos não tem notícias dele. Sabe que não se casou com Gláucia, porque se casou com uma professora chamada Sara.

Ela não se casou, porque se desencantou com Gilberto. Vai encontrar-se hoje com Mateus, gerente de uma concessionária de carros. Talvez dê certo. Já é o segundo encontro. Ela agora tem a cabeça no lugar, como se diz, e jamais passará por inquietações ridículas como aquelas dos dezesseis anos.