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Alguns assuntos de sempre – como o amor, a vida e a morte – usados como pretexto para um exercício poético.

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ME POUPE

Tu sabes como sou tolo.

Jamais me dês, por favor,

Um pingo sequer de amor.

Não saberia onde pô-lo.

 

CAUSA MORTIS

Se pensas de mim livrar-te,

Se queres mesmo o meu fim,

Um beijo ou dois deixa dar-te,

Assim, isto, assim, assim.

 

HAICAI PAULISTANO

Sem pão, sem um puto,

Jesus espero, e sua luz,

Debaixo do viaduto.

 

VOTOS

Abraços mil para ti,

E muitos beijos, milhões,

E cantos de bem-te-vi,

Vários, sem fim, multilhões.

 

INDIFERENÇA

Era frio. Dava de ombros

A tudo, e a nada ligava.

Nem o edifício exaltava

Nem lamentava os escombros.

 

O SUSPEITO

Quem é esse assassino? Quem

Em meu peito o punhal crava?

Quem é ele? Que nome tem?

Amor? Eu já suspeitava.

 

ORAÇÃO

Amor por quem eu vivi,

Amor por quem morrerei,

Me ajoelho diante de ti,

Amor, meu deus e meu rei.

 

PONTO FINAL

Da vida, boa ou sofrida,

A morte é o último estágio.

Se início for de outra vida,

Não será mais do que um plágio.

 

TREINAMENTO

De vez em quando

ainda que por um segundo

mesmo que por um instante

feche os olhos

e apague o mundo

 

Feche os olhos para tudo:

para a manhã

para a tarde

para o sol

peneirando ouro

sobre a avenida

 

De vez em quando

feche os olhos

vá se acostumando

 

De olhos fechados você estará

quando para você estiverem olhando

no dia mais importante

da sua vida.

 

ESPELHO

Sempre que me encaro assim

vejo que só um sandeu

exatamente como eu

daria importância a mim.

 

VIDA, PEÇA EM TRÊS ATOS

O roteiro é sempre igual.

As vitórias perseguidas,

As derrotas conseguidas,

A morte, no ato final.

 

SALDO

Do grande amor morreu tudo.

Lembrança dele não há

Senão muito vaga, já

Sem forma e sem conteúdo.