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Embora vá aparecer nos três episódios desta crônica, Décio de Almeida Prado não será seu protagonista, nem entrará no texto como grande nome do teatro. As três histórias são da época em que ele dirigiu o Suplemento Literário do Estadão.

Eu trabalhava na revisão, onde uma tarde por semana ele liberava as provas do suplemento. Numa dessas vezes, eu, que me gabava de imitar primorosamente uma galinha cacarejando, fiz isso com especial capricho.

Meus colegas, habituados com a imitação, não riram, e eu imaginei o que me pareceu óbvio: minha galinha não era mais verossímil. Então o dr. Décio foi até a mesa do chefe da revisão e avisou: “Há uma galinha aqui dentro.” Até hoje acredito que tenha sido uma demonstração da conhecida gentileza dele. Queria amenizar minha frustração.

Nesse tempo eu tinha uma pretensão que até agora não abandonei: achava que era poeta. Uma tarde, juntei alguns haicais numa folha e os deixei na mesa do dr. Décio, com um bilhete.

Ele prometeu responder-me, e o fez rapidamente. Publicaria os haicais. Quando contei aos colegas, eles desconfiaram: eu publicado no Suplemento Literário do Estadão? Ora…

A descrença não se desfez nem no dia em que mostrei o recibo de venda dos direitos autorais e aumentou quando semanas e mais semanas passaram sem que os poemas fossem publicados. Quando eu, não aguentando mais os gracejos, perguntava por que, então, o jornal havia feito o pagamento, meus amáveis colegas respondiam: exatamente para não publicar…

Num sábado, os haicais foram finalmente publicados. E com ilustrações!

Isso animou outro dos revisores, um candidato a dramaturgo que dizia ser um sucessor melhorado de Shakespeare e Ibsen. Com essas qualidades autoatribuídas, uma tarde ele colocou nas mãos do dr. Décio tantas peças quantas elas podiam suportar.

Com esse o dr. Décio não foi tão condescendente. Se deu uma resposta, deve ter sido negativa, embora presumivelmente educada. Não cheguei a ler nenhuma dessas peças. Conheci um conto, com o qual meu colega de revisão e literatura garantia ter vencido um concurso.

Faço o resumo dele aqui, pelo ineditismo do enredo. Era a história de um caçador que, por ter ferido um tigre, se viu obrigado a fugir dele até o fim da vida. Ocorre que o tigre jurou vingar-se (a expressão era essa, no original) e empenhou-se em cumprir sua promessa. Perseguiu o caçador por todos os continentes, até o dia do encontro final.

Momentos antes do combate em que os dois morreram, o caçador fez uma reflexão: o tigre tinha sido seu mais fiel companheiro. “Filosófico, você não acha?” perguntou-me o autor.

Pobre dr. Décio.