Ah, como ele ama esta mulher que abraça agora no convés, com as estrelas ao alcance da mão, como frutas. Como é inacreditável esta ventura de poderem estar os dois assim diante do imenso mar, na amurada, beijando-se.
Ele ama esta mulher como jamais conseguirá dizer, mas assim mesmo diz, entre um beijo e outro, com sílabas molhadas. Como se eles fossem um menino e uma menina pelos quais tivesse um afeto especial, o mar faz o navio subir e descer como um brinquedo de um parque de diversões.
É a última noite que passarão juntos, e cada beijo mostra essa aflição. No dia seguinte eles se separarão para sempre, nunca mais se verão. É uma imposição do destino, que os dois aceitaram. Ele voltará para a mulher e os filhos, ela daqui a uma semana estará casada com o noivo, num país distante.
Ele a abraça mais forte, ele a beija, agarra-se a ela como se o navio estivesse afundando e ela fosse o único bote salva- vidas. Poderia ser esta a derradeira noite do mundo, ele pensa, beijando-a ainda mais intensamente, com a veemência do desespero.
Os lábios dos dois, tocados agora pelas lágrimas, não bebem mais a doçura de alguns momentos antes. Mas murmuram amor ainda, amor, amor, enquanto podem.
Trinta anos depois ele, quando sua memória for um monte de escombros desconexos, terá uma noite, no asilo, um sonho maravilhoso: estará em um navio flutuando entre estrelas e se verá abraçando e beijando uma mulher extraordinariamente jovem e bela.
Acordará mortificado. Por que a vida nunca é como certos sonhos que às vezes as pessoas têm?