Carlos Eduardo não é poeta. Se fosse, teria escrito esta manhã um desses poemas que as pessoas leriam e diriam: “Nossa. Parece do Pessoa. É do Camões, não é? É seu? Sério? Eu não entendo muito disso, mas olhe, fiquei arrepiado. Ói como está meu braço, ói.”

Acordou apaixonado, com a lembrança das mensagens trocadas à noite com Fellyna, na rede social. Há uma semana eles se aceitaram como amigos e dia a dia vêm se descobrindo mais compatíveis. É como se já se conhecessem há séculos.

Amam Woody Allen (para ela o melhor filme dele é Rosa púrpura do Cairo, para ele é Meia-noite em Paris). Quando ele disse que Dostoiévski é seu escritor preferido, ela teclou: para mim, Crime e castigo  é o máximo. Ele completou: … e Os irmãos Karamázovi.

Por enquanto, tudo é virtual, mas, como se diz, a química está dando certo. Ontem à noite ele e ela resolveram que já é hora de se encontrarem fora do face. Ela confessou recear que ele vá achá-la diferente da foto do perfil, em que seu rosto está quase oculto por unhas pontudas como garras de uma felina. Ele, gentil, pôs um hehehe: sei que você é ainda mais bonita, minha gata.

Quando, à meia-noite, se disseram até amanhã, ele estava extasiado. Dormiu assim, extasiado, e tomou o café cantando. Extasiado.

É sábado, há um sol de domingo na rua e, às dez, eles se encontrarão no Ibirapuera. Ansioso, ele tem ímpetos de beijar os armários, a mesa, as cadeiras. Acaba beijando a palma da mão, como se fosse a boca de Fellyna. Essa identidade, Fellyna, o deixa um pouco preocupado. Teme, agora, cair numa cilada. Já se vê fotografado, filmado, escarnecido por aquele grupo de gozadores do escritório.

Quando chega ao parque, no local marcado, vê que Fellyna é até mais bela do que ele imaginara. Ela se apresenta – Mariah, com “h”, explica – e diz que ele é como ela sempre soube: um bonitão, Carlos Eduardo. Carlos Eduardo? Como ela sabe o nome dele? Foi sempre só F. Dostoiévski, no face. Ela se diverte com o espanto dele: sei mais, da sua vida, do que você pensa. Ele já imagina que tipo de golpe ela vai lhe aplicar, quando Mariah diz: não precisa ter medo. Quem me passou toda sua ficha foi a Teca. Eu sou uma espécie de prima dela. Depois eu conto. (Teca é uma garota com a qual ele ficou uns meses, dois anos antes. Também amiga do face.)

Ela olha com apetite para os lábios dele: a Teca me disse que nunca vai haver ninguém que beije como você. Estou louca para ver se é verdade. Não, aqui não. O seu apartamento é ali na Sena Madureira, não é? Então vamos, estamos esperando o quê? Eu sou como a Teca. Despachada.

No caminho, ele se lembra de Teca, de como ela se abrasava com meia dúzia de beijos, e pensa que, se essa espécie de prima for um pouquinho parecida, este vai ser um sábado inesquecível. Mariah avisa que é sincera e por isso precisa lhe contar uma coisa (pronto, ele se prepara, estava tudo bom demais). Ela diz: o Dostoiévski, para mim, é o escritor mais chato do mundo.

Carlos Eduardo não diz, mas pensa: ora, que se dane o Dostoiévski. E, se ela quiser incluir no pacote o Woody Allen, que se dane o Woody também.