Talvez você seja observador como eu fui há algum tempo – digamos, algumas décadas atrás. Talvez, na hora de escovar os dentes você note uma ruga no lado direito do rosto, um inchaço nas pálpebras ou uma elevação abaixo do peito, como se você tivesse deixado ali um travesseiro. Pode acontecer, nós sabemos.
Talvez você não se preocupe com isso. É normal. Todos sabem como os espelhos são malévolos. Ou talvez você se preocupe – é normal, também – e comece a pensar em mudanças na alimentação e no estilo de vida (quem sabe umas caminhadas, uma academiazinha, aquela que está sempre anunciando promoções).
Preocupando-se ou não, fazendo ou não as caminhadas e a academia, é provável que se acentuem a ruga, o inchaço nas pálpebras e aquela elevação abdominal que o impede de usar suas belas camisetas com listras horizontais. O culpado não é você. Certamente você já ouviu falar no Tempo. Pois é. Pode jogar a culpa nas costas dele. Se ele não tivesse essa mania de correr como o coelho da Alice, tudo seria diferente. Cada um de nós seria um Dorian Gray, e o espelho, se falasse, diria: hoje você está mais belo que ontem, meu amo.
Se o nosso exterior não nos agrada, há um recurso bem antigo, mas que ainda costuma dar certo: investir na beleza interior. Minha antiguidade me aconselha aqui a resistir à tentação de dar dicas de como chegar à beleza interior. Ela me diz que não sou nada bom nisso, e eu acredito. Ainda bem que ela me policia. Eu estava quase citando coisas talvez já fora de catálogo: música (Débussy, Chopin), romances (Machado, Cortázar), poesia (Pessoa, Wislawa). E… integridade ética.
Se vocês julgam já possuir a beleza interior, ótimo. Se não estão muito certos, não tentem vê-la por olhos alheios, principalmente por olhos tão pouco dignos de crédito quanto os meus.
Ela é mais facilmente reconhecível por vocês mesmos. Por exemplo, quando seus olhos não se envergonham de ficar úmidos se soa na sala o Clair de lune, enquanto você lê Pessoa dizendo que onde ele pôs a esperança as rosas murcharam logo.