Ele viu Mariluce duas vezes. Se bem que o nome dela já lhe soe como um feitiço, ele ainda não reconhece estar apaixonado. Conhece bem a paixão. Apaixonar-se, para ele, é quase como respirar.
Na primeira vez em que viu Mariluce, estava dando uma espiada nos tênis, na vitrine de uma loja do shopping. Não tinha visto nenhum especialmente bonito e já ia embora quando ela, com o nome no crachá, saiu da loja e se aproximou:
“Bárbaros, não é? É uma linha nova, para este verão.”
Mal havia olhado para Mariluce, mas já tinha decidido que era linda. Ela não demorou um minuto para convencê-lo a entrar. Enquanto ela o ajudava a calçar um tênis, ele teve confirmada sua intuição: era linda, embora ele não soubesse dizer exatamente por quê. Pelo conjunto da obra, talvez.
Trocaram as palavras estritamente necessárias para concluir a compra do tênis e lá se foi ele, esbarrando nas pessoas, como se estivesse embriagado. E estava. Bêbado de paixão. Se fosse eleger a mais bela manhã de sua vida, seria aquela.
Naquele mesmo dia, à tarde, ele se pôs novamente diante da vitrine. “Olá, tudo bem?”, reconheceu-o Mariluce. “Veio escolher outro? Esse aí ficou muito bem em você.” Ele notou que ela havia arranjado um jeito de se tornar ainda mais bonita naquelas duas ou três horas. Ao sair – com a cabeça cheia de palavras açucaradas – e novo par de tênis nos pés -, disse tchau. Ela respondeu, e ele, já escravo dela e de sua voz, disse até amanhã. Mariluce sorriu.
Isso tudo foi ontem. Amanhã já chegou, é hoje, e ele, com o coração saltando como um pássaro engaiolado, está diante do shopping. As lojas abrem às dez e faltam quinze minutos, tempo exato para ele pensar nas palavras que dirá a ela.
O carro para quase na frente dele. O homem beija a mulher, beija, beija e, quando parece ser o último beijo, volta a beijar, beijar.
Ele observa a cena sorrindo, até reconhecer a mulher. Antes que ela desça, ele se encolhe todo, se diminui, e começa a se afastar apressadamente, ouvindo o guincho de um dos tênis que comprou ontem.