Depois de uma hora de conversa com os alunos do oitavo ano, o escritor abriu um tempo para as perguntas.

“O senhor…”, começou uma garota.

Você, por favor.”

A menina abriu os braços:

“O quê?”

“Me chame de você“, sorriu o escritor. “Eu não sou tão velho assim. Se minhas contas estão certas, deixem ver”, ele disse, fazendo cara de quem calculava, “vou completar sessenta no fim do ano.”

Houve um zum-zum na sala: ele tinha dito sessenta?

“Eu disse sessenta? Desculpem. Setenta.”

A professora, que orientava a palestra, balançou a cabeça, divertida. Mostrou quatro dedos para a classe:

“Quarenta.”

Os alunos riram. Não se podia negar: era simpático o escritor. Satisfeito com a brincadeira, um truque antigo para cativar seu jovem público, ele convidou a garota a continuar:

“Você estava perguntando o quê, mesmo?”

“Você disse que desde menino já pensava em ser escritor. Como foi isso?”

“Eu tinha lido uns livros de aventuras, gostei, e aí entrou aquilo que todos nós temos: o espírito de imitação. Achei que podia escrever, também. Aí eu comecei e… para azar de vocês, até hoje não parei.”

“Simples assim?”, perguntou outra garota. “Começar e continuar?”

“É aquilo que eu sempre digo a vocês. É a persistência”, comentou a professora.

Um garoto levantou a mão:

“Eu tenho vontade de ser escritor, mas não gosto muito de ler. É problema?”

Ouviram-se risos. A professora avisou ao escritor:

“Esse é o humorista da turma.”

Outro garoto perguntou:

“Você tem um jatinho?”

“Jatinho? Não entendi.”

“É que você é uma celebridade.”

“Eu não sou celebridade, de jeito nenhum.”

“É, sim, Nós vimos no google. E as celebridades têm jatinho.”

“Bom, eu posso até ser conhecido, mas celebridade… Não, eu não tenho jatinho, claro que não.”

O garoto olhou com decepção para os dois colegas que estavam mais perto dele:

“A Ivete Sangalo tem.”

“O Roberto Carlos tem”, disse o segundo.

E o terceiro, com pena do escritor, falou baixo:

“E a Claudia Leitte também.”