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Gramáticos (1) – Nunca se deve confiar inteiramente nos gramáticos quando aparentam estar vencidos. Eles têm sempre uma última crase na manga, para sacar.

Gramáticos (2) – Há gramáticos tão desconfiados que chegam a examinar com lupa a palavra invisível e a encostar o nariz na palavra inodoro.

Crase (1) – Diante de um caso difícil de crase, devemos manter o sangue-frio. Um sorriso confiante talvez seja útil também, desde que em nenhum momento a crase possa considerá-lo um escárnio. Há crases extremamente vingativas.

Crase (2) – No meio do caminho tinha uma frase. Um gramático passou por lá e agora há ali uma crase.

Crase (3) – Ferreira Gullar disse que a crase não foi feita para humilhar ninguém. A opinião da crase não é bem essa.

Crase (4) – Um gramático em má fase não lembra se é valo ou valho, se o certo é falhado ou falho e não acerta uma crase.

Sujeito (1) – As frases mais perigosas são aquelas em que há uma crase mal-intencionada e um sujeito oculto.

Sujeito (2) – Morrer é um desses verbos cujo sujeito gostaria de estar sempre oculto.

Sujeito (3) – Digam o que disserem os gramáticos, um sujeito oculto traz sempre uma presunção de ilegalidade.

Sujeito (4) – O sujeito oculto é uma das tentativas da gramática para parecer um pouco menos maçante.

Sujeito (5) – Há certas figuras na gramática que convém tratar com cautela. O sujeito oculto é uma delas.

Agravante – Quando a ofensa gramatical é grave, diz-se que foi cometida contra o português; quando é gravíssima, diz-se que foi praticada contra o vernáculo.

Reticências (1) – A evolução do poeta deveria ir das exclamações aos pontos, dos pontos às reticências e, destas, ao silêncio.

Reticências (2) – As reticências, num poema, às vezes não indicam nada além da preguiça de quem o escreveu.

Pontos de exclamação – Os pontos de exclamação parecem estacas fincadas no texto: daqui ninguém passa! Quando se juntam dois ou três, é puro despotismo.

Proparoxítonas (1) – O problema das proparoxítonas é que algumas são intoleravelmente esdrúxulas.

Proparoxítonas (2) – A palavra pudica tem complexo por não ser proparoxítona.

Proparoxítonas (3) – A sorte do cágado é ser proparoxítono.

Pronome reflexivo – Para a gramática aprovar-me, devo me ensimesmar, ensimesmar-me ou em mim mesmar-me?

Verbos (1) – Que orgulhosos são os verbos intransitivos, que não precisam do sujeito e dos complementos. Que doce arrogância há em chover, por exemplo, ou nevar.

Verbos (2) – Por que não cassam de uma vez a licença desses malditos verbos irregulares?

Verbos (3) -Se no meio dos verbos defectivos acrescentarmos um “a”, o mau cheiro se espalhará.

Polissíndeto – O polissíndeto é uma bacanal de conjunções copulativas.

Vírgulas (1) – As vírgulas são aquelas pausas recomendadas pelos gramáticos para que o sujeito não chegue ao final da oração precisando de um balão de oxigênio.

Vírgulas (2) – Uma vírgula diz a outra, da mesma frase: “Não dá para você se afastar um pouquinho? Já estão reparando. Vão pensar que somos aspas.”

Dois-pontos – Às vezes uma nova era, às vezes só desapontos. Quem sabe o que nos espera depois dos dois-pontos?