São só os três, em casa, assistindo ao jogo: o pai, a mãe, o filho. A mãe, porque é Copa e não é a primeira que ela vê, consegue acompanhar os movimentos da bola de um lado para o outro, e às vezes arrisca um palpite. Concorda com o marido: o Felipão precisa mudar alguma coisa. E o Murtosa, por que não se mexe?
O marido, futelouco, futemaníaco, futefanático, explica com alguma impaciência as variações táticas, aqueles 4-3-3 e 4-2-4 que ela vai tentando enxergar. Se a tela da tevê fosse um pouco maior, talvez desse certo.
Quando ela imagina ter entendido, o marido lhe diz que não é bem assim; as variações táticas… variam.
O menino, de 4 anos, em quem o pai já três horas antes do jogo tentou acender um verde-amarelismo com toques de anil, boceja. Tenta encontrar o Naruto entre aqueles homens que correm de lá para cá. Ou talvez o Ben 10. Já serviria…
O pai, vendo na mulher um caso já meio perdido, concentra-se no menino: aquele, olha, é o Neymar, olha o Fred, o Hulk.
Quando ele diz Hulk, o menino se interessa, mas logo se decepciona: Hulk, aquele? O pai não entende nada de Hulk.
De repente, ele se interessa por uma jogada: Neymar está correndo com a bola, gingando, e todos tentam derrubá-lo. Um, finalmente, consegue. O menino se entusiasma: quem é aquele, pai? Que legal que ele é.
O pai, empolgado, diz: é o Neymar, eu não falei que ele é bom?
O menino levanta-se e põe o dedo na tela: não o Neymar, este aqui.
O pai desanima: o filho está apontando o juiz.