Ela está satisfeita por ter entrado na rede social, não pode dizer que não. Em dois meses já tem um bom grupo de amigos, se dez constituírem um bom grupo.
No começo, tentando se enturmar, ela atirou a esmo, aceitou e solicitou amizades sem critério, e teve algumas decepções. Andou metida em debates sobre a essência do ser e das coisas e foi convidada a opinar sobre pensadores dos quais quase não tinha ouvido falar – Jean-Jacques Rousseau, René Descartes, Michel Foucault – e que não sabia muito bem o que tinham feito além de pensar. Quando saiu desse grupo, continuava sem saber.
Guardou desse tempo algumas frases de um rapaz que diariamente fazia reflexões sobre a vida. Na segunda-feira, a vida era um riacho, na terça era um passarinho, na quarta era um leão, e ora fluía tranquilamente, ora gorjeava maravilhosamente, ora rugia assustadoramente.
Logo em seguida ela aderiu a um grupo de amantes da literatura e descobriu que Shakespeare era considerado melhor escritor do que Paulo Coelho pela maioria deles, que George Sand não era homem e que Evelyn Waugh não era mulher.
Há três semanas ela finalmente se encontrou. Não coloca nem troca mensagens. Simplesmente altera a foto do seu perfil.
Toda vez que ela faz isso – e ela faz isso diariamente -, dez minutos depois recebe pelo menos dez retornos. Eles são concisos, a maioria não passa de uma palavra: linda, bela, maravilhosa, espetacular, divina.
Agora mesmo ela está escolhendo a foto que vai pôr hoje. Olha uma, olha outra, analisa os olhos, o sorriso. É uma responsabilidade cotidiana. Não pode falhar. Dependem dessa escolha os comentários que receberá: linda, bela, maravilhosa, espetacular, divina, e mais uns cinco semelhantes – o suficiente para ela se sentir bem o resto do dia. Há três semanas ela não abre nenhum dos seus livros de autoajuda.