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1 – Merece a fama de grosseiro quem diz que tal ou qual mulher é prato para cinquenta talheres, ainda que em certos casos a estimativa possa pecar pela limitação.

2 – É tão fácil jogar a culpa no amor, com a fama que ele tem e sua cara de mordomo de Agatha Christie, trazendo na bandeja do chá um facão capaz de degolar num golpe dez cordeiros.

3 – Se o que você quer é a fama, não basta subir no trapézio e dar o triplo mortal sem rede. É preciso estatelar-se lá embaixo.

4 – A fama, podes gozá-la em vida. Da tua glória os pósteros não te poderão dar notícia.

5 – Talvez alguma frase nossa fique e sejamos reverenciados por ela, até que descubram não passar de um plágio (e nem sequer de um Pessoa ou de um Machado, mas de um obscuro Jean-Pierre Bruilé, romancista monegasco do século 20.

6 – O poeta é aquele tipo que, em dias de sorte, dele e dos leitores, em vez de tirar um soneto do bolso, deixa escapar uma algazarra de passarinhos.

7 – O amor é aquele tirano que nos faz visitar um dia seu palácio e no dia seguinte nos chuta para longe, se houver neve lá fora. Se for um dia bonito, talvez nos deixe ficar, como às vezes deixa um cão sarnento ou um gato estropiado. O amor gosta dessas pequenas exceções que confirmam sua fama. Já o viram dando biscoitos esfarelados a passarinhos, se bem que se diga que havia veneno em cada um deles.

8 – A glória subiu-lhe à cabeça. Estando assim, não lhe custou dar um salto e agarrar-se a uma estrela. Orgulhoso, ele contempla o mundo dali, sonhando com Pulitzers e Nobéis. Metidos em pantufas, os pés já imaginam como se comportarão quando pisarem na Calçada da Fama.

9 – Um famoso pode hoje, sem jamais tê-la visto, tornar-se amante de uma celebridade, engravidá-la e anunciar amanhã o nascimento de um casal de gêmeos já para daqui a três meses. Basta que seu assessor de imprensa se comunique com o representante da celebridade, para evitar contradições. Às vezes nem isso é preciso.

10 – Não querer nada ou ninguém, não ter gozado fama ou glória, não ter proezas nem história, morrer obscuro e em paz, amém.

11 – Tenho pouco tempo, quase nenhum mais. Morrerei com a fama de ser um tolo romântico e também com o rótulo de ridículo sonetista. Talvez me absolvam da primeira, mas do segundo jamais.