Minha rua anda famosa. Não como a Oriente, longe disso, nem como a 25 de Março, mais longe ainda. Não atingiu o status de avenidas como a Paulista ou a Brigadeiro Luís Antônio. Mas já é a mais famosa rua do bairro. E isso quem diz não sou eu. Qualquer outro morador confirmará.

Como se enchem de orgulho meus vizinhos quando, respondendo a questionários para compras a crédito ou outras coisas assim, dão o endereço: Rua Cônego Eriberto Lellis. E com que satisfação esclarecem: Lellis com dois “eles”.

Até o mês passado não era assim. Nós nem desconfiávamos de que vivíamos num lugar tão importante. Estávamos perto demais da grandeza para poder notá-la inteiramente. Achávamos que era uma rua comum, de casas comuns, árvores comuns, postes comuns, cachorros comuns, tudo comum. Não tínhamos noção do que viria a acontecer. Éramos como uma população de miseráveis dormindo, sem saber, sobre lençóis de petróleo.

De repente, a transformação. E que transformação fulminante! Começou na manhã em que a equipe de tevê parou diante da papelaria e a repórter loirinha entrou para falar com a dona. Num instante a loja se encheu de curiosos. A equipe de tevê se pôs a gravar.

“A senhora tem aí a cópia dos boletins de ocorrência?”, perguntou a repórter.

“Todos”, disse dona Otília. “Estão aqui. Os vinte e sete.”

A loirinha pegou o maço de BOs:

“Só a dona Otília, aqui da papelaria, foi assaltada vinte e sete vezes em três anos.”

“Dois anos e nove meses”, corrigiu dona Otília.

“O que a senhora sentiu nessas vezes todas?”

“Nas primeiras, muito medo. Depois da décima, por aí, era como se eu estivesse trabalhando numa peça de teatro. Na última, quero dizer na última até agora (dona Otília riu), eu quase cheguei a bocejar.”

“Vejam a que ponto chegou a situação da segurança pública nesta cidade, telespectadores”, comentou a repórter.

Depois de mais duas ou três perguntas, ela encerrou:

“Este foi mais um registro dentro do conjunto de reportagens sobre a violência na cidade. É um recorde, desde que iniciamos a série.”

Já havia então uns quarenta moradores ali. Nós nos olhamos. Houve um momento de dúvida. Era caso de comemorar? Sorrimos. Tivemos vontade de aplaudir dona Otília e também, naturalmente, o cônego Eriberto Lellis, por dar seu nome a uma rua assim repentinamente famosa. Chegamos a nos olhar, com as palmas engatilhadas, mas faltou ali uma liderança. Na próxima oportunidade, não falharemos.