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Então chega um dia em que você finalmente descobre o que é: um animal cansado.

Depois de todas as indagações filosóficas, das crenças induzidas pela religião, de todas as leituras, essa certeza vem encontrá-lo no lugar menos lógico e mais prosaico: a sala de sua casa.

Você não está no Caminho de Santiago, você não está em Jerusalém, você não está numa página de Blaise Pascal ou de Santo Agostinho, você não é aturdido por um clarão súbito nem por sua própria voz interior que lhe diz: se você houvesse me dado atenção, não precisaria ter buscado tanto, sofrido tanto para saber quem você é.

Sentado no sofá, com os olhos semifechados (mais um instante e você estaria dormindo, e perderia a revelação), você reconhece a verdade, e ela é tão simples como a frase inicial de uma prova de redação em que um menino de oito anos relata o amor que sente por seu gato.

O gato do menino é bonito, clarinho, e bonita e clara é a verdade que você recebe. Desconfiado de sua simplicidade, você ainda tenta descobrir nela algum truque, algum defeito que a desmascare.

Mas ela é insofismável: você é um animal cansado, e sua maior aspiração agora, se lhe perguntassem, nada tem a ver com façanhas ou conquistas. Você não sonha mais em escrever o romance de sua geração ou o poema no qual os críticos verão reflexos de Rilke e cintilações de Shakespeare.

Você já renunciou aos Nobéis e até aos Jabutis. Sua vontade é dormir ou, mais modestamente, puxar ao menos uma sonequinha. E se, durante o sono, escorrer pelo seu queixo uma baba, não será problema nenhum: você rirá quando acordar. Homens simples têm direito a várias coisas, e babar é uma delas.

Você aceita sua mediocridade, sua pequenez, sua insuficiência, não se importa mais por ter sido derrotado por tantos moinhos, e o alívio que você sente, se pudesse ser medido por esses especialistas que vivem analisando os sentimentos humanos, seria definido como quase uma felicidade.

Que bom ser isso, esse animal cansado, e estar em casa, e não precisar mais ser grande, forte ou maravilhoso, e acolher no corpo o calor do sol, que entra pela janela sem cerimônia, se esparrama pelo tapete e, como um gato bonito e clarinho, igual ao do menino, prepara-se para se acomodar também, sonolento, no sofá.