Nos dias em que os anos e a tristeza lhe pesam mais, ele tenta voltar ao tempo de menino. Quando volta, está sempre em sua bicicleta preta, Philips, pedalando atrás da bicicleta vermelha da menina que nunca saberá disso, mas é sua namorada.

Gostaria que a menina conhecesse o poder que tem sobre ele, e que o exercesse. Que exigisse provas do seu amor, que o instigasse a façanhas, como enfrentar o valentão da rua e, por um cochilo dos deuses, vencê-lo ou ser tão esmagadoramente derrotado que pudesse escrever o nome dela com seu sangue infantil e aguado, no muro, ou talvez até deixar gravado na calçada aquele poema que fez em sua homenagem e não teve coragem de entregar.

Gostaria que a bicicleta vermelha conhecesse o itinerário do horizonte e o levasse além dele, até o lugar em que certo poeta disse morar o fabricante dos bissextos arcos-íris.

Gostaria de uma tarde se ver repentinamente nesse lugar mítico e descobrir que, como suspeitara, o fabricante era um velhinho tão simpático quanto Gepetto, seu ajudante era Pinóquio e a matéria-prima usada era nada além de lápis de cor e toques de magia.

Nessas ocasiões em que retorna ao tempo de menino, seria melhor que não saísse à rua. Anda como um abobado. Fala sozinho, ri. De vez em quando chora furtivamente, ao lembrar que, em anos e anos acompanhando a menina em seu passeio, nunca teve a coragem de emparelhar sua bicicleta com a dela e dizer: “Olha, eu te amo.”

Hoje finalmente ele ousa. Pedala com vigor, alinha a bicicleta com a dela e consegue dizer:

“Cecília, eu…”

A mulher que vinha em sentido contrário quase parou. Julgou ter ouvido seu nome. Curioso. Estava desde a véspera no bairro da sua infância, para visitar parentes, e nada ali dava a impressão de ter mudado. O homem que havia passado por ela parecia o menino que durante anos a seguira em seus passeios de bicicleta e nunca lhe dissera um “a”, embora em seus lábios palpitasse permanentemente a aflição de todas as palavras do mundo.