doll-1705418_1280Se pudesse, não sairia mais de casa. Agrada-me ficar aqui, lendo e cochilando, como convém à minha idade. Não tenho mais o que buscar lá fora. Nunca imaginei dizer o que digo agora: tenho no meu micro tudo de que preciso. Interessa-me a arte, só ela, e me censuro por não me haver dedicado mais ao conhecimento da pintura, da escultura, da arquitetura, da música. Faço isso agora, depois de ter descoberto a magia que há no ato de teclar. Se há alguma importância no homem, é o legado que ele deixa registrado na arte. Que obras maravilhosas é capaz de produzir quem não é nada além de pó. Quando o homem atinge a culminância de sua arte, faz cócegas no pé de Deus. Teclemos, teclemos. Não mordamos a isca do sol, esse presunçoso. Que fique lá fora. O mundo está diante de nós, no monitor. A vida não é mais que uma das matérias-primas da arte.

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Ah, que desastrado eu sou! Queixo-me de tudo, lamento-me de tudo, todo o tempo, depois vem um dia em que chego e peço desculpas. E, já nesse dia mesmo, ou no seguinte, em vez de me emendar, volto com mais tristezas. Chopin (para falar de alguém com sangue polonês como o meu) era triste. Mas Chopin conseguia fazer da sua tristeza uma tristeza universal, uma tristeza artística. Acho a tristeza essencial para a arte. Na comédia, vejo mais artifício do que arte. Tenho uma visão dramática da vida (dramática, no caso, é eufemismo de trágica). Não digo com isso, evidentemente, que a minha visão seja a certa. É a minha e, quando digo minha, gostaria que esse minha se referisse a alguém cuja opinião tivesse valor. Sou só um sujeito que não tem aquilo que se chamava antigamente de bagagem de conhecimentos e que teima em se expressar porque um demônio interior o incita a isso. Minha consciência de que me expresso mediocremente é um dos vários males que me afligem. Acredito ser honesto, mas que peso há de ter uma arte baseada só em honestidade? Falo de sofrimento porque sofro, mesmo quando me vem a suspeita de que eu possa ser como aquele de quem Fernando Pessoa dizia que fingia honestamente, a ponto de acreditar na dor fingida. Os lugares-comuns são geralmente considerados abomináveis, mas eu estou quase a ponto de usar um, que penso definir-me perfeitamente: sou um poço de contradições.

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Ver na arte uma proeza, uma coisa que só meia dezena de predestinados pode realizar, é desarrazoado. Embora às vezes haja exceções como Shakespeare, Mozart e Picasso, a arte é um ato humano. Mas ver na grande arte (aquela que merece um A grandão, maiúsculo) algo que qualquer um consiga fazer sem uma participação da alma é uma obscenidade.