Manter o foco e não usar mídias sociais em excesso pode ajudar na quarentena (Foto: Unsplash)

E aí, beleza?

Não! Sabemos que (desta vez) não está tudo bem e que não há qualquer tipo de “beleza” em torno do tema do momento, o coronavírus. Como bem colocou o historiador israelense Yuval Harari, autor dos best sellers “Sapiens: Uma breve história da humanidade” e “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã”, o impacto dessa pandemia e de uma iminente crise global moldarão o mundo para sempre. “A tempestade passará, a humanidade sobreviverá, a maioria de nós ainda estará viva – mas habitaremos um mundo diferente.”

O fato é que não estávamos habituados a esse “isolamento social forçado” e isso tem mexido com a nossa cabeça. Conversamos com a psicóloga Elaine Pescatori, especialista em ansiedade e depressão e mentora em mudanças de expansão de vida, com vasta experiência nas relações humanas, para entender como podemos manter nossa sanidade mental durante esse período.

Como o isolamento social atua no estresse e na ansiedade?

Uma coisa é estar em casa por vontade própria, por querer descansar, curtir a casa – momentos esses de acolhimento, de privacidade –, porém, ter de ficar em casa, ainda mais com a palavra “isolamento” pautando essa recolha, acua, nos arremete a estar presos, confinados, o que é uma obrigatoriedade. Esse isolamento, o distanciamento social, nos priva, nos limita de contato físico, tão necessário ao ser humano e isso intensifica o estresse, e consequentemente, a ansiedade, ou o contrário também: a ansiedade intensificada por falta de contato gera o estresse. Reações que você, provavelmente, não conhecia internamente, vêm à tona: o choro flui mais rápido, ou a vontade de comer persiste, ou outras sensações. O bom caminho é reverter tudo isso, percebendo a ansiedade em seu corpo; cocê consegue sentir e identificar dentro de você e assim pode respirar e pontuar o que sente, tendo mais cautela em como agir.

No isolamento social, nossa casa é o nosso mundo particular (Ilustração: Reprodução/ Henn Kim)

Por conta da pandemia e todos os ‘problemas’ em torno do tema, está cada vez mais difícil de relaxar. O que podemos fazer para se abstrair e descansar a cabeça?

Concentrar-se nos desafios de cada momento ajudará a mente a não se auto-sabotar. Ter uma rotina, escrita, por exemplo, ajudará, uma vez que o cérebro entende melhor quando visualiza; deixar essa rotina à mostra, ajudará o seu dia fluir melhor. Não esqueça de incluir nessa rotina o seu tempo particular para relaxamento, um banho mais longo, meditar, ouvir música, ler um livro, fazer exercício físico… tudo isso pode ajudar a espairecer nesse momento.

Na sua opinião, as mídias sociais ajudam ou atrapalham nessa hora?

As mídias sociais fazem um papel de interação, de comunicação, e têm ajudado muito no momento, mas atenção: também podem atrapalhar. Tudo em excesso não é bom. O indivíduo deve ter discernimento e observar o quanto está vidrado e tendo ações automáticas de acesso em mídias. A melhor dica com relação às mídias sociais é a cautela, o uso moderado.

Como evitar o pânico?

O que é o pânico? No dicionário, a definição é de algo que assusta ou amedronta. Estamos numa fase de muitas ameaças, mas é importante identificar as (pre)ocupações e o que é produtivo ou não; pensar muito no futuro trava o presente, o aqui e o agora, o que se consegue soluções. Eu falo muito aos meus pacientes sobre logística mental, ou seja, olhar a situação de frente e pensar como resolvê-la. Nossa mente tem o impulso rápido de intensificar tudo, e isso faz com que nos auto-sabotamos e se você não identifica esse tênue segundo do que está acontecendo, o pânico pode emergir. Não podemos nos esquecer de que estamos perante um momento de extremo autoconhecimento, também.

Há riscos do tema e os problemas em torno dele abalar as relações humanas durante a quarentena, como por exemplo, o casamento ou a sua relação com os filhos e outros familiares?

As relações com uma certa instabilidade antes da quarentena até podem ficar um pouco mais frágeis. Por, pode ser um bom momento, por estarem com um convívio maior, do casal rever pontos a melhorar na relação, por exemplo. A quarentena pode ser o momento de gerar um bem-estar maior. Esse maior convívio pode ajudar os casais se redescobrirem, uma vez que o estresse do dia a dia afastava momentos como estes. Sobre as relações de pais e filhos, a meu ver, esse momento é extremamente benéfico, pois fez retomar a convivência intensa. Traçar uma rotina para as crianças também ajudará a se manterem saudáveis mentalmente, ajudando a evitar que fiquem ociosos e tenham entretenimento. Brincadeiras em família, cozinhar em família, mas também, que cada um respeite o tempo de cada um. Isso ajuda muito no bom convívio.

A psicóloga deixa algumas outras dicas valiosas para superar esse tempo difícil: pegue leve consigo mesmo. Você não precisa ser perfeito, nem agradar as pessoas ao seu redor, ou estar disponível para todos; está tudo bem! Seja seu melhor amigo neste momento… e lembre-se: tudo isso vai passar. Mantenha o foco, a boa alimentação, anote as suas (pre)ocupações, porque você saberá como lidar com tudo isso. E não hesite em pedir ajuda, sempre! Um colo amigo, uma conversa com um profissional (hoje em dia a maioria dos psicólogos estão atuando de forma virtual), mas peça ajuda.