E aí, beleza?

Eu já li que “a beleza não está nas coisas; ela está nos olhos de quem vê”. E se os olhos são o espelho da alma…. mas o belo e o estético andam de mãos dadas, assim como a fome e a vontade de comer. Contudo, hoje a comida deixou de ser o centro das atenções e agora dá lugar a uma série de fatores que contam para uma experiência inesquecível em novos restaurantes que cheiram a novidades deliciosas. Aromas, cores, sabores, texturas… trabalhar com as sensações é condição obrigatória para fisgar o cliente não só pelo estômago, mas também pelas emoções.

Os pontos comuns que unem esses cinco restaurantes em Portugal é que por trás de cada espaço, há a figura de um chef renomado, poucos lugares (reservas são altamente recomendáveis), além de trabalharem essencialmente com produtos frescos, locais e sazonais.

Não vendem comida e sim experiência! Conheça cinco espaços em Lisboa que vale a pena uma visita:

A exuberante tela da designer Carlota Pereiro, um pano de fundo para uma refeição inesquecível. (Foto: Divulgação)

Kabuki

Um restaurante dedicado à culinária japonesa, mas com muito estilo! Para começo de conversa, a localização fancy anexa ao Hotel Ritz Four Seasons, em Lisboa, já é um prenúncio do que virá adiante. Aberto em dezembro de 2021, é o primeiro restaurante da rede Kabuki fora da Espanha.

A essência gastronômica do Kabuki celebra a fusão da gastronomia japonesa e mediterrânica, com os melhores ingredientes e criatividade, que está a cargo do chef espanhol Andrés Pereda. O chef, que está há mais de 14 anos no grupo, veio do Kabuki Komori, em Valência, onde chefiou a cozinha durante 10 anos, para assumir este projeto em Lisboa. Não desaponta!

Beleza que se põe à mesa – mas no caso, aqui é ao balcão, onde se tem início à saga gastronômica. O pano de fundo para essa viagem sensorial é uma exuberante tela da designer Carlota Pereiro, que confere um envolvente jogo de cor e luz ao espaço, a cargo do arquiteto Maurice Sainz.

O bento box com louças vindas diretamente do Japão e que conferem charme e requinte a cada prato. (Foto: Divulgação)

Facas afiadas e sushiman a posto para um desfile de pequenas delícias. Eis que surge um bento box com seis ‘snacks’, um abre-bocas sofisticado e muito saboroso de boas-vindas do chef. Segue o baile com os usuzukuris em cortes finíssimos e o frescor do peixe que é nítido! Há lírio, dourada, salmão e toro (barriga do atum), com uma redução de tomate incrivelmente fresca, pão ralado e chips de alho – uma combinação um tanto exótica quanto surpreendente, com sabor a quero mais. Depois das entradas, pequenos apontamentos para limpar o paladar. A vez agora é do arroz de mariscos revisitado, uma reinvenção de um prato tradicional da Península Ibérica, com influência japonesa.

O prato que se segue é também uma releitura divertida dos ‘ovos rotos’: salmão marinado com ovos, batatas e sem o tradicional presunto. Algumas especiarias que o chef não revela deixam o prato levemente picante e elegante, ao mesmo tempo. Surge um temaki, que faz uma transição para os niguiris. Novamente a barriga de atum é quem brilha, assim como o robalo. Até este momento, o molho de soja não aparece… seria este um sinal do purismo da culinária do chef Andrés Peredas? Talvez.

Cocktail Tokyo Blossom. (Foto: Divulgação)

Mas há uma certeza até aqui: de que estamos diante de um japonês incomum, onde se come com arte, vibrante e sensorial, assim como a comida.

O Grupo Kabuki nasceu na Espanha e completou agora, 20 anos, e como se pode imaginar, há uma forte influência Ibérica nos pratos. O restaurante é composto por três pisos: no piso inferior, está a sala principal, onde são apresentados menus de degustação e opções à carta; no piso intermédio está o bar Kikubari e, no piso superior, o Kabuki Experience, um espaço mais intimista com menus temáticos e mais sofisticados.

Filipe Wang, o simpático head sommelier com experiência no mundo do fine dining, garante que a oferta vínica deslumbra e exalta as criações gastronômicas do Kabuki. No vinhos, começando já com 350 referências, e com ambição de chegar às mil, a filosofia do grupo está claramente presente na forte aposta no champanhe (150 opções), vinhos da Borgonha, riesling, sake e jerez, e nas harmonizações que respeitam e destacam a qualidade do produto (o grupo foi um dos responsáveis pela harmonização da cozinha japonesa com vinho na Espanha). Neste primeiro projeto internacional, o objetivo passa também por destacar os vinhos portugueses, oferecendo Portos, Madeiras, verticais exclusivas de pequenos produtores nacionais, entre outros. Há vinho para todos os gostos, mas também uma extensa seleção de chás premium (24 referências distintas), servidos sempre prontos a consumir ao cliente, cervejas artesanais e vinho de Jerez criado pelos sommeliers do grupo Kabuki. Um luxo!

A cozinha em forma de ilha que se traduz num palco para a experiência gastronômica no Marlene,. (Foto: Divulgação)

Marlene,

É o novo fine dinning da capital e um projeto autoral, que por si só é uma experiência indelével! O Marlene, mais que um restaurante, é a identidade, a essência da chef Marlene Vieira e traduz a viagem da cozinheira pela gastronomia no seu (vasto) percurso profissional. A cozinha é portuguesa, mas há técnicas da francesa, uma vez que Marlene teve passagem pela França.

Imagine um espaço com luz baixa, amplo, cozinha em forma de ilha que se traduz num palco, onde a luz mais intensa ilumina o espetáculo de Marlene e sua equipe. Mário Cruz é o braço direito da cozinheira; e Gabriela Marques é a enóloga, competentíssima, e que ajuda a elevar a experiência gastronômica a outro nível, com vinhos selecionados a dedo, de pequenas produções e que harmonizam lindamente, sempre numa crescente, com cada prato.

Chef Marlene Vieira. (Foto: Divulgação)

Prepare-se para um menu fresco, criativo e vibrante, uma lufada de ar fresco que reflete o momento vigente de ‘pós-pandemia’ – quase uma epifania da chef, depois de dois anos cozinhando o projeto ‘a baixa temperatura’, com o restaurante já pronto. A abertura aconteceu em abril deste ano. Os produtos de época e a sazonalidade estão presentes neste espaço minimalista e intimista, mas não são eles que ditam o menu: é o impulso, a garra, a energia de Marlene que os transforma em pratos interessantes e, acima de tudo, marcantes, para serem ‘rapados’ sem a menor vergonha.

Abre com um falso queijo, com uma infusão de chouriço e natas; segue-se uns snacks a que a chef chama de uma ‘ida ao fundo do mar’, com uns percebes (espécie de crustáceo das encostas rochosas do nordeste do Oceano Atlântico, muito comum em Portugal).

O menu de aproximadamente 12 momentos é uma ode à Portugal, mas um Portugal extremamente diversificado, fresco, criativo e surpreendente: há tremoços em forma de flor, peixe espadarte defumado e cacau; há gambas violeta (camarão) com rábano e caviar de limão; o pão (feito na casa) não pode faltar à mesa, é claro! Nem o bacalhau, ou, no melhor estilo português, o ‘fiel amigo’, como se diz por aqui. Há ainda favas (espécie de ervilhas), requeijão de ovelha, cogumelos morilles e trufas.

Contudo, o Marlene, não é sobre comida, é arte. É sim fine dinning, mas descomplicado, sem firulas e elegante, quase que um bailado à mesa, dançado ao ritmo das batutas de Marlene. Marlene quer uma estrela (Michelin)… é possível venham, logo, algumas.

A vista do Fifty Seconds, no Hotel Myriad by Sana. (Foto: Divulgação)

Fifty Seconds

Quando (absolutamente) tudo num ‘restaurante’ é único, a comida é traduzida em experiências tão sensoriais que fica difícil tangibilizar um ‘mero jantar’, a 140 metros de altura. É no topo do Myriad Hotel, na emblemática Torre Vasco da Gama, onde a magia acontece.

O elevador leva-nos ao topo, e os 50 segundos da viagem deram o nome ao restaurante FIFTY SECONDS by Martín Berasategui, um espaço com apenas 30 lugares e que é uma referência na cena de restaurantes em Portugal e internacionalmente.

Não bastasse o fato de Martín Berasategui ser o chef com mais estrelas Michelin da Espanha, o Fifty Seconds é o palco perfeito para um bailado excêntrico e uma cozinha panorâmica que se transporta para uma experiência única, com um dos maiores chefs do mundo da Alta Cozinha.

Como grande gênio da cozinha contemporânea, Martín mergulha na criação de novos pratos e sabores. Filipe Carvalho (Feitoria, Vila Joya, Fortaleza do Guincho) é o chef executivo do Fifty Seconds e que executa com maestria e perfeição cada passo do menu degustação, que tem como pano de fundo o Tejo, a ponte Vasco da Gama e a uma vista 360 da cidade, que entra a rodos pela sala.

Salmonete com escamas crocantes, cevadinha de açafrão e lima, gamba do Algarve e jus de salmonete. (Foto: Divulgação)

Da exuberante adega climatizada, ao mobiliário e iluminação, sem esquecer os acessórios e decoração, tudo foi criado exclusivamente para este espaço, conferindo uma personalidade própria e um ambiente cosmopolita e sofisticado.

Marc Pinto é o sommelier do restaurante e que eleva experiência a outro patamar: tem paixão pelo que indica e sabe qual o casamento perfeito de cada taça com cada prato. Uma harmonização perfeita que viaja por vários países e regiões, desde Portugal até à França, passando por Nahe, Alentejo, Dão, Lisboa e a Sicília.

Chef Martín Berasategui. (Foto: Divulgação)

O menu é fresco e surpreendente: tem bacalhau, tem foie gras, vieiras e lagostins; mas há também borrego de leite, cogumelos silvestres e purê de beringela defumada. Só não há flor, o que não tira – de todo – o brilho nem a beleza de cada proposta apresentada pelo chef.

“O Grupo SANA tem vindo a reforçar a sua aposta no setor dos restaurantes nos últimos anos. Depois de marcarmos a diferença na hotelaria, queremos fazer o mesmo neste setor com projetos inovadores como o SUD Lisboa, Allora, Koji, Uddo ou o Al Quimia. É um projeto ambicioso que nos coloca no mapa de restaurantes a nível internacional e conseguimos ter em Portugal, neste espaço, o Chef Martín Berasategui”, refere Pedro Miguel Ramos, Diretor de Comunicação do Grupo SANA.

O ambiente encantado do chef José Avillez e seu culto ao reino vegetal. (Foto: Divulgação)

Encanto

en·can·to
sm
1 Aquele ou o que deslumbra, atrai, agrada, enleva, encanta.
2 Qualquer palavra ou ação com supostos poderes mágicos de enfeitiçar; encantamento.

Sejam bem-vindos a este espaço encantado de alta cozinha, onde as estrelas são os vegetais. Quando a proteína animal é retirada da “paleta” de sabores e texturas de uma refeição, o desafio na criação de um prato aumenta muito. É no mínimo, desafiador. E igualmente surpreendente. Depois do Belcanto, o Encanto é hoje o restaurante mais gastronómico do grupo do chef português José Avillez. Com um menu de degustação único 100% vegetariano, com cerca de 12 momentos, o Encanto é uma prova de que a criatividade é ilimitada quando o assunto é cozinha de autor!

Um jogo de cores, texturas e temperaturas com sabores contrastantes e inesquecíveis é apresentado de forma surpreendente e original. (Foto: Divulgação)

Um jogo de cores, texturas e temperaturas com sabores contrastantes e inesquecíveis é apresentado de forma surpreendente e original. Legumes, folhas sementes, algas, cogumelos, flores, frutos, ovos e queijos são preparados e servidos delicadamente. Para acompanhar, sugerem-se vinhos biodinâmicos e cervejas artesanais, sucos naturais, infusões e kombuchas caseiros.

No encanto, o trabalho de pequenos produtores locais ou de proximidade é valorizado, e dá-se palco aos produtos sazonais. Azevia, tartar de beterraba, couve fermentada, arroz de trufa e o merengue… impossível sair daqui com fome, se é o que querem saber. Uma experiência para ser vivida vezes sem conta e ‘rapar’ os pratos até ao limite da nossa vergonha.

O ambiente do FOGO. (Foto: Divulgação)

Fogo

As cozinhas de Alexandre Silva são território fértil de criatividade e pouca monotonia, e por isso, ele tenta constantemente sair da zona de conforto – além de querer que os clientes também o façam.

Ganhou visibilidade junto do público no programa Top Chef, da RTP Portugal, que venceu em 2012, e lhe garantiu uma temporada no restaurante El Celler de Can Roca, na Espanha. Ter um restaurante integralmente dedicado ao fogo era uma ideia antiga, que andou uma década na mente de Alexandre Silva.

Chef Alexandre Silva, do FOGO. (Foto: Divulgação)

Como o próprio nome sugere, o FOGO é não só o elemento presente para a confecção de cada prato, mas o mote para este restaurante com conceito disruptivo, ambiente ‘caloroso’ e comida de conforto. Queria resgatar a arte do fogo, a cozinha de fogo que considera estar na base do receituário português. Via este elemento vivo como um novo desafio, pois segundo ele, “o fogo todos os dias tem um comportamento diferente; tem de ser dominado, embora dificilmente o consigamos controlar por completo. Por isso, não há um limite para trabalhar com o fogo. Tem de trabalhar diariamente com ele para saber lidar”.

Alexandre acredita que é essa incerteza, esse desafio, que o fascina no fogo. A ele e aos clientes entusiastas deste restaurante. Aqui, come-se muito bem, comida portuguesa autoral e farta, saborosa e que desperta a nossa memória afetiva, visto que o fogo é um elemento ancestral e que conecta as pessoas. Must go!