Ver as meninas passando é a alegria do velho. Ele não mexe com ninguém. Ao contrário, é o tempo que mexe com o velho, que lhe dá um tapa na cara, que zomba, que avisa: ‘já foi’.

Ver as meninas passando é a alegria do velho. Ele sente um beliscão na alma, um resquício de desejo natimorto, um amor pelas rosas que ainda crescem por aí – mesmo que ele não tenha mais condições de regá-las.

Ver as meninas passando é a alegria do velho. É o oposto do cheiro de morte que grudou no travesseiro dele, o oposto dos remédios que fazem a tremedeira das mãos parar, o oposto da enfermeira amargurada que sequer sabe o nome do seu paciente,

Ver as meninas passando é a alegria do velho. Já que os filhos não ficam um final de semana inteiro com ele, já que os netos preferem o videogame e os amigos não moram mais aqui, nesse planeta.

Ver as meninas passando é a alegria do velho. Melhor do que o sabor da manga, melhor do que o gosto do caqui, melhor do que lamber os beiços sem guardanapo para se limpar.

Ver as meninas passando é a alegria do velho. Deixa o velho olhar. Sentadinho no banco. Quase uma estátua desgastada. O velho, se pudesse, teria balinhas no bolso.

Ver as meninas passando é a alegria do velho. Quando elas forem embora, quando elas crescerem, ele não vai estar mais aqui, vai ter virado passado, só mais um velho tarado que passava os dias sentado no banco esperando as meninas passarem.

Ver as meninas passando é a alegria do velho. Melhor do que conversar com fantasmas. Ou só prestar atenção no radinho (e nas notícias ruins).

Mas alguém ligou para a polícia.

O velho foi recolhido, levou um sermão e se mijou.

Ver as meninas passando é a alegria do velho.

Amanhã, vai chover.

Vai faltar menina para o velho ver.