cama

Vamos supor que o personagem dessa crônica tenha broxado.

Vamos chamá-lo, de um modo aleatório e singelo, de “D.”.

Não que D. estivesse muito animado com a ideia de transar em uma terça-feira. D. preferiria que fosse em um dia sem preocupações extras ou a necessidade de acordar cedo no dia seguinte. Agora, D. também sabia que transa adiada é transa perdida. E que os tempos não estavam assim tão favoráveis ao exercício do ‘deixa pra depois’. Então, se o calendário calhou na terça era terça mesmo e acabou.

Assim, D. foi para a cama com aquela calma chinesa de sempre. Uma quase ausência. Um blasé calculado. Não tinha preocupações em ‘performar’ tal qual um equilibrista faminto de farol. Ou um mímico pirado de anfetaminas. A ideia era amar e ser amado na base do trivial simples.

Mas como diria o C. de Caetano Veloso: “(…) mas na hora da cama nada pintou direito.”

D. não é o tipo de homem que culpa a parceira. Pelo menos não faria isso de forma consciente. No máximo, vá lá, poderia desejar, secretamente, que ela não usasse aquele cinto tão difícil de tirar. Ou ainda se perguntasse o por que de tanto zíper naquela calça, naquela blusa, naquela vida. Fora o sapato. Preferia não tirar. O dela. Era tipo como arrancar uma Excalibur da pedra. Talvez, ora pois, o fato de ter tirado as meias (prefere mantê-las no pé) tenha causado um choque térmico de alto impacto – e que, consequentemente, tenha sido responsável pela diminuição do fluxo sanguíneo em partes específicas do seu corpo.

Ela não tinha um gato. Se tivesse um gato na casa, poderia culpá-lo. “Alergia” seria a palavra redentora.

Mas antes de se entregar feito um soldado vencido, D. Lutou. D. Beijão. D. chupou. D. Esfregou. D. falou sacanagem no ouvido. D. chupou de novo. D. achou que era a hora de abrir a janela e tomar um copinho de água bem gelada e espairecer…

Ela percebeu que algo estava errado e tentou descontrair. Ou desconstruir. D. olhou para o membro pálido como se olhasse para uma fatia triste de alcatra. Pensou na sua situação como metáfora da própria vida. Quis culpar o colégio de freiras. Quis culpar o fato de ter sido o último a ser escolhido na educação física. Quis culpar pais super protetores. Quis culpar o consumo excessivo de refrigerantes de Cola. Quis culpar o Moreira Franco, o Moacir Franco e o Moraes Moreira. Quis culpar Donald Trump e o avanço da direita europeia. Quis culpar o aumento de aluguel. Quis culpar a lua minguante e a entrada de peixes em saturno. Quis denunciar o patriarcado, o consumismo e o Sergio Moro. Ou algo ou alguém assim.

Mas ao broxar D. se sentiu sozinho. Broxar é solitário. Era um homem no espaço. Abandonado com seu pinto mole no meio do deserto. Que momento para uma epifania! Que momento para encontrar a chave do enigma da existência, que momento…para ela ligar a televisão.

Ela passeia pelos canais. Tem vídeo de pegadinha todo dia?

Tem reality show de cozinha e alguma entrevista bizarra na rede TV. Dessa vez, D. era o entrevistado. A apresentadora pede para que ele se sente no sofá e começa a fazer perguntas constrangedoras: “foi a primeira vez?”, “acontece com que frequência?”, “já tomou Viagra?”.

D. responde que uma vez usou Viagra de farra e que sentiu uma taquicardia intensa e achou que fosse morrer e que talvez não tivesse saúde pra isso e…

Ela fez um cafuné nos cabelos de D. Ele acordou daquele pesadelo televisivo. Mas ainda sentia que nada havia acontecido no lugar que deveria acontecer. Não era uma terça-feira feliz para o sexo casual.

Desculpou-se. E desculpar-se é a pior parte. Não. A pior parte era vestir-se depois de um não-sexo. O mar quando morre na praia é bonito, mas ver a parceira recolhendo as próprias roupas no chão é apenas triste. Ao recolocar a calcinha, ela girava o punhal da vergonha no peito de D. Era como assistir as cortinas de um teatro se fechando sem, de fato, ter assistido ao espetáculo.

D. também se vestiu. Começou pela cueca – talvez para cobrir a maior das vergonhas. Vestiu as calças com presa – quase enfiando as duas pernas no mesmo buraco. Por pouco não caiu. O que seria bom. Poderia dar um divertido ar de pastelão para aquela situação.

Antes de ir embora, deu um beijo demorado como compensação. Estava fazendo tudo errado. Foi embora desejando que ela tivesse um plano B.

D. não tinha. D. era D..

Não quis pegar um Uber. Foi embora andando. Já estava esquecendo o drama. Acontece com todo mundo.

Na rua, cachorros engatados urravam no cio, de um apartamento ouvia-se gritos de prazer, os carros chacoalhavam com casais e suas acrobacias e porteiros homenageavam moradoras que se quer davam ‘bom dia’.

Mas acontece que um acidente de carro tinha acabado de acontecer naquela rua também. Nem polícia, nem ambulância, só um carro enfiado em um poste. A passageira tinha sido atirada para fora do veículo. De onde D. estava, era possível enxergar que não havia mais o que fazer.

A polícia chegou. Perguntaram se D. tinha visto algo. Ele não mentiu. Não viu nada. Liberaram D. sem mais perguntas.

Ele seguiu o seu caminho.

E sentiu uma coisa que achou bizarra. Muito bizarra.