radinho

As imagens do circuito interno são as únicas distrações permitidas pela síndica. Não, na verdade, elas também não são permitidas. Ainda assim, Jaílson se senta em frente aos monitores da portaria e se deixa embalar pelas imagens de Laurita.

Laurita é tudo aquilo que Jaílson só terá acesso pelas imagens de segurança do edifício. Laurita é aquele “bom dia” rápido pela manhã ou o “chegou a pizza” no fim de noite. Laurita é aquele planeta distante que não se vê de dentro de uma cabine de portaria de prédio.

Não existe comédia romântica que dê conta desse desejo. Esse tipo de história só tem como protagonistas a publicitária e o fotógrafo; o jornalista e a designer; o operador da Bolsa estressado e a budista engraçadinha.

Não tem romance e nem comédia para o porteiro Jaílson.

O cinismo é um privilégio do capital.

Jaílson que não tem Netflix, que não sabe o que é Black Mirror, que não ouviu o último do Leonard Cohen, que não tem uma camisa legal do David Bowie, que não tem time na NFL, que não sabe a diferença entre um Martini Rosso e um Punt e Mes, que não faz acadêmia, que nunca fez terapia, que não comeu tartar no Le Jazz, que não leu o último do Ian McEwan, que justificou o voto, que não tem uma posição formada sobre o avanço da direita européia…

Jaílson que é Flamengo, porra.

Laurita nem sabe que o Jaílson chama Jaílson. Laurita que deixou uma caixinha generosa no final de ano. Laurita que é uma mulher moderna e independente. Laurita que viaja pra New York duas vezes por ano. Laurita que problematiza questões de classe, raça e gênero na internet. Laurita que cita Osho. Laurita que é de esquerda. Laurita que faz terapia. Laurita que tem tentado cortar os carboidratos. Laurita que fuma. Laurita que já sente saudade do Haddad. Laurita que está apavorada com a eleição do Trump e o  avanço da direita européia…

Jaílson abre o portão da garagem para Laurita entrar. De olho no monitor, Jaílson assiste Laurita descer do carro. Descuidada, deixa a saia subir uns centímetros a mais. Jaílson imagina um zoom que não existe. Laurita se recompõe. Pega a bolsa no banco de trás. Caminha até o elevador. Chama o elevador apertando três vezes o botão. O elevador chega.

Jaílson muda para o monitor do elevador. Laurita pega o celular. Responde uma mensagem. Se olha no espelho. Empina os peitos. Ri de alguma coisa. O elevador chegou.

Jaílson vai para o monitor do corredor. Laurita mexe no celular outra vez. Procura a chave da porta na bolsa. Deixa a chave cair. Se abaixa para pegar a chave no chão. Põe a chave na fechadura. Enfia. Vira. Abre a porta.

Jaílson liga o monitor da imaginação. Jaílson vê Laurita se jogando no sofá. Laurita respirando fundo. Laurita tirando o salto sem usar as mãos. Laurita perguntando: “amor?”.  Jaílson aparecendo com um copo de cerveja. Laurita agradecendo. “Como foi seu dia?”.  Os dois se beijando no sofá. A televisão liga sozinha. Tem jogo do Flamengo. Risadas. Ele beija o pescoço dela. Ela geme. Ele morde. Ela pede. Ele faz que vai resolver aquilo no sofá mesmo. Laurita puxa Jaílson pelo braço. Eles se levantam. Os dois vão para debaixo do chuveiro. Fazem amor. Ou melhor: trepam.

A buzina de um carro faz com que Jaílson desligue o monitor da imaginação.

A portaria é um lugar pequeno e abafado. Jaílson se sente mais relaxado agora. Sintoniza o radinho em uma estação AM. A síndica não pode saber que ele tem um radinho. É proibido ter radinhos nesse tipo de condomínio de classe média alta. A síndica não quer saber de distraídos no plantão noturno. A cidade é muito perigosa e os assassinos estão só esperando uma oportunidade para invadir a propriedade privada. E preciso proteger as pessoas de bem. É preciso zelar por Laurita.

O locutor pede para que os ouvintes liguem para ele e contem sua história de amor. Quem ligar primeiro ganha dois ingressos para o show de uma dupla sertaneja de sucesso moderado.

Jaílson pega o celular e tenta ligar duas vezes. Mas outro ouvinte foi mais rápido. A história que Jaílson ouve é a de um motorista que teve um affair com a patroa – mas acabou demitido porque o marido dela desconfiou de algo. Porém, antes de sumir da vida da mulher, o motorista teria feito amor com ela no acostamento de uma estrada escura e perigosa.

Aquele momento mágico de amor, nas palavras do locutor, fez com que a madame se apaixonasse pelo motorista. Na semana seguinte, ela largaria o marido e a vida confortável que levava para ser juntar ao Waldomiro (sim, esse era o nome do ouvinte). Agora, eles vivem em uma casinha simples no interior de São Paulo. Ele é caminhoneiro. Ela virou professora assistente em uma escola rural para filhos de lavradores.

Quando o ouvinte desligou o telefone, a música que rima amor com flor, coração com emoção, coroou a narrativa.

Jaílson acha que o motorista inventou tudo aquilo.

E aqueles ingressos para o show ficariam melhores nas mãos dele.