Texto originalmente publicado no blog Haja Saco, em 2007. Ele é parte do livro “Haja Saco – o livro” (2008). 

Ao ser parida por um cano fumegante, ela sentiu o calor do sol queimando seu corpinho minúsculo e o vento brincando em seu rosto egípcio. Uma sensação gratificante de liberdade invadia aquele coração de pólvora. Pena que a vida fosse assim tão breve. Pena que o seu alvo estivesse tão próximo. Nem tempo para se lamentar ela tinha. O melhor era se concentrar no seu instante, nos seus segundos de plenitude. O jeito era fazer direito…

Em milésimos, pensou naquelas heroicas companheiras que venceram a finitude. Pensou nas descendentes que atingiram John Lennon e o presidente Kennedy. Aquilo era história. Aquilo era a vida eterna (exatamente o que ela ansiava). Perdida em devaneios, perdeu-se no vazio. Era uma bala perdida. Tinha um mundo de possibilidades. Uma perdição.

Queria a fama, mas era criteriosa. Em sua trajetória irregular, evitou as crianças. Não queria aparecer em programas populares, não queria sensacionalismo barato. Driblou também os pobres, negros e homossexuais. Não queria ser acusada de plágio. Não queria fazer aquilo que seus pares já haviam feito milhares de vezes. Acertar minorias era comum demais, era fácil, nada nobre. Em seu ziguezague, procurava por celebridades relevantes. Políticos e artistas talentosos seriam bons para o seu currículo. Lamentou não existirem mais Sinatras e Picassos dando sopa por aí.

Ao rasgar o ar, percebeu um fast-food. Comparou-se com aquelas porcarias gordurosas e se achou “até descente”. Na trajetória, passou por uma livraria e teve vontade de entrar. No momento em que foi disparada, mergulhava no universo de Oscar Wilde. “Alguém pode me dizer como termina o Retrato de Dorian Gray?”.

A bala seguiu o seu caminho, mas uma ideia metafísica tomou conta de todo o seu ser. “E se os mortos por armas de fogo reencarnarem como munição, como balas dos mais diversos calibres? E se as balas reencarnassem em futuras vítimas de armas de fogo? A vida é circular!!!!”

O seu tempo estava acabando. Que raiva. Era uma agente da morte, mas ansiava pela vida. “Cadê o meu John Lennon? Cadê o meu Kennedy?”. Nada. Ninguém que valesse a pena. Ninguém que rendesse uma boa manchete. Adeus New York Times, adeus Le Monde, adeus CNN…

A bala perdida decidiu se suicidar.

Atirou-se contra uma parede de concreto e morreu entre tijolinhos insignificantes. Seu último pensamento foi: “ Eu tinha razão. Deus não existe!”. No dia seguinte, foi encontrada por um peão de obra. Do seu corpo defunto, o homem fez um colar. Aos amigos, dizia que dava sorte, que era um amuleto…