Eu não sonho mais. Ou não me lembro.  Minha mente é um cinema que virou estacionamento. Ou o projetor quebrou. Freud, o bilheteiro (ou o lanterninha), saiu de férias e nunca mais deu as caras por aqui.
Eu seria capaz de me contentar com um sonho bobo, uma coisa trivial. Se eu sonhasse com comida já estava bom.  Queria um desses sonhos em que a gente é capaz até de sentir o cheiro saindo da panela. Um feijão com arroz onírico.
Um sonho besta, desses sem consequência, já me alegraria. Qualquer caminhada pelo parque ou pelo espaço. Qualquer conversa sobre o tempo ou sobre a Escola de Frankfurt.
Sonhar com sexo também seria legal – e frustrante. Minha mente suja podeira, pelo menos, produzir um sonho safado. Nem precisa de muita produção ou roteiro intrincado. Bastaria um sonho molhado com a (XXX). Mas também ando celibatário de sonho.
Me servia até um desses pesadelos clássicos. O monstro debaixo da cama. Eu pelado no shopping. Ou aquele em que uso um banheiro transparente na frente dos colegas de trabalho.
Também tenho saudade de quando eu sonhava que estava na sala de aula. Acho que na oitava série – mas com 40 anos.
Queria aqueles sonhos que a gente acorda procurando algum significado, aqueles labirintos, aqueles buracos, aqueles baús que, quando se abrem, trazem os traumas de infância e os desejos reprimidos.
Sonhos premonitórios nunca tive. Queria sonhar antes com algo que me acontecesse depois. Ou seja, o sonho seria um ensaio, um estágio para o que viria a se materializar de dia. Valeria também os números da Mega Sena.
O que devo comer pra estimular o sonho? Uma maçã antes de dormir ? Canja? Barras de chocolate? Devo rezar? Meditar? fazer polichinelos? Ler? Deixar a janela aberta? Dormir descoberto?
Penso que, talvez, meu estoque de sonhos tenha acabado.
As prateleiras estão vazias.
Sou acordado pelo barulho de um mosquito tentando me contar um segredo.
Sou incapaz de entendê-lo.