cabeça

Eu era um garoto de oito anos quando encontrei uma cabeça degolada no quintal da minha antiga casa.

Brincava de bola sozinho, chutando-a contra a parede, enganando o tédio de um fim de tarde sem surpresas. Depois de um chute mais forte, a bola quicou no muro e foi correndo para o meio de um jardinzinho que ainda estava bastante incipiente. Fui recolher a bola perto de uns vasinhos. E eis que, encostada em um deles, encontrei ela, a cabeça.

Aproximei-me com medo. Mas, na minha meninice, considerei aquela cabeça degolada uma espécie de troféu. Escondi a cabeça debaixo da minha camiseta e corri para o quarto – passando pela cozinha feito o The Flash para que minha mãe não desconfiasse de nada. Já no meu quarto, escondi a cabeça entre dois brinquedos e um tubinho de ‘Pega Varetas’. Imediatamente, desci para o jantar. Comportando-me de forma exemplar para que não houvesse suspeitas.

Quando voltei para o quarto, a cabeça estava lá – posta na prateleira, olhando-me profundamente. Com uma expressão de quem está prestes a dizer alguma coisa. Mas o quê? Era muito menino para entender certas coisas.

Naquela fase da vida, a cabeça degolada foi batizada de ‘Tom’. Não me lembro bem o motivo, mas devia ser o nome usado por algum herói americano da TV. Como ‘Tom’, o degolado participava das minhas brincadeiras solitárias – que sempre envolviam bonecos Comandos Em Ação, uma coleção de Playmobil e Transformers. Até onde a memória alcança, a cabeça servia como uma espécie de QG para os meus amigos de brinquedos (que costumavam escorregar pela língua roxa do degolado).

Por conta do trabalho do meu pai, tive que mudar muitas vezes de casa durante a infância e a adolescência. Em todas essas trocas de endereço, tive o cuidado de levar comigo (devidamente escondida) a minha cabeça de estimação. Normalmente, ela era embrulhada e guardada em caixas vedadas de papelão. O fato de, estranhamente, não existir nenhum cheiro forte e desagradável saindo daquela cabeça nunca me chamou atenção. A cabeça era limpa.

No auge da adolescência, a cabeça degolada era o que me fazia confiante e diferente. Eu era a única pessoa a possuir uma cabeça cortada, uma cabeça confidente, uma cabeça-amuleto. Aquela cabeça-prêmio era a certeza de que eu era abençoado por uma espécie de excepcionalidade. Grande feitos estariam reservados no meu futuro.

Tive uma adolescência boa. Era um aluno de destaque, um sucesso nos esportes e o querido das garotas. Tinha um prazer especial em levá-las para o meu quarto e, sob o olhar de aprovação da cabeça Tom, avançar minhas mãos em direção aos peitos e coxas das minhas colegas de secundário.

Foi só no meu aniversário de 20 anos que o que era doce se acabou. Pela manhã, ao fazer uma barba que de fato quase não existia, fixei o meu olhar na imagem que eu via refletida no espelho (a minha imagem). Tive um choque. Lavei o rosto três vezes. Mirei-me estarrecido.

Corri para o quarto e peguei o Tom pelas orelhas. Levei o degolado para frente do espelho, emparelhando a cabeça morta com a minha própria cabeça viva. Não havia duvidas: o degolado era eu.

O degolado era eu com 20 ou 30 anos a mais. Era minha cabeça atirada de um futuro desconhecido para dentro do meu quintal de menino. Era uma mensagem. Era um recado. Era uma crueldade comigo mesmo. Comecei a gritar com Tom (que já não sei se deveria continuar chamando de Tom). “Quem é você? O que aconteceu comigo? O que vai acontecer comigo?”

A cabeça nada dizia. Como sempre, parecia querer dizer, mas não soltava a língua roxa para nada. A partir do entendimento que aquela cabeça era eu em algum futuro, minha vida mudou.

Acovardei-me. Qualquer janela aberta poderia desabar sobre minha cabeça, qualquer passeio de carro, qualquer viagem de avião, qualquer lâmina mais afiada. Qualquer coisa poderia se tornar o instrumento daquela profecia, do homem sem cabeça que um dia eu ainda seria.

Comecei a beber. Perdia a cabeça no sentido figurado algumas vezes – sempre com a perspectiva de que aquilo se tornasse literal. Em um devaneio sofisticado, ousei imaginar uma saída metafísica. O troféu, o amuleto, o objeto macabro era eu. A cabeça degolada era quem de fato existia. Eu? Eu era um sonho daquela cabeça. O degolado ainda sonhava – e sonhava comigo. Eu não existia. Só a cabeça existe.

Bebia tudo aquilo que uma não-existência me autorizava a beber. E fui tirar satisfação com o meu eu degolado. Cheguei trôpego em casa – não percebendo que a porta estava aberta, possivelmente arrombada. Ouvi um som estranho vindo do quarto. A minha cabeça não estava sozinha. Não tinha armas em casa. Bêbado, peguei uma faca.

Mesmo ébrio, eu sabia. Eis o ponto, vou lutar com o ladrão e, provavelmente, ele vai me degolar – cumprindo assim o meu destino. Era só isso. Uma estupidez.

Entrei no quarto com uma faca na mão e não encontrei nenhum ladrão. Era apenas Tom assistindo televisão. Sentei-me ao lado daquela cabeça degolada e assisti também.

Uma espécie de rebelião acontecia em uma prisão de Manaus.

Choramos os dois.

Entendi tudo.

Estávamos todos degolados.