escada

Fez um filme adulto quando tinha 20 anos. Uma única cena. Nem foi um sexo assim tão selvagem. Perto dos filmes de hoje tudo não passava de um papai-mamãe estilizado.

Na época, saiu em VHS. E fazia um relativo sucesso em videolocadoras. Mas com o tempo,  o filme havia, naturalmente, desaparecido do radar. Só mesmo aqueles aficionados de sempre, os colecionadores, tinham alguma recordação daquilo.

A coisa mudou quando a cena foi parar na internet – mais especificamente no Xvideos.

O filho assistiu. O ex-marido assistiu. O chefe assistiu. As vizinhas assistiram. Em certo sentido, parecia que todos ao redor tinham visto a tal cena. Talvez aquele fosse o filme mais assistido de toda a internet.

Claro que aquilo era apenas uma impressão.

Mas era um passado inviável. Ninguém perdoa uma atriz pornô.

Ela entregou o apartamento e sumiu. O filho já tinha a vida dele e o trabalho na loja não era nada que importasse muito. Procurou a menor e mais interiorana cidade que poderia encontrar.

Achou uma casinha no meio do nada. Parecia a personagem de um quadro impressionista. Ou de um filme sobre desolação no meio-oeste americano.

Acomodou-se na casinha, sem wi-fi, televisão ou vizinhos. Eventualmente, pensava em sexo. E quando isso acontecia era como se a casinha no meio do nada recebesse a visita de fantasmas, de homens e mulheres desterradas, fugitivos do além. Cada morto com a sua mentira. Cada morto com a sua vergonha. Cada morto com o seu passado.

Um dia um homem, não um fantasma, bateu na sua porta. Um sujeito alto, barba desgrenhada e com um sotaque arrastado e irreconhecível. Apresentou-se como alguém que vendia coisas, qualquer coisa que coubesse em sua kombi azul. Liquidificador, abajur, copos, malas, livros, cafeteiras…

Sim, ela precisava de uma cafeteira.

O homem deu um preço. Ela rebateu com outro valor. Ele aceitou – com a condição que ela passasse um café para ele também.

Ela sabia que aquilo era um problema. Ao menos, claro, não era prudente. Assim como ela, aquele homem também deveria ter um segredo, também deveria estar fugindo de algo.

Mais uma vítima da indústria pornô? Não. Difícil. O mais provável é que fosse um problema com a justiça, um fugitivo da polícia, um serial killer, um…

Ela preparava o café. Ele sentou-se em uma cadeira. Ela perguntou se ele gostava com muito açúcar. Ele respondeu, de cabeça baixa, nenhum açúcar. Ela sorriu. Ele não percebeu.

Os fantasmas desterrados daquele lugar cercaram a casa.

As luzes se apagaram.

No meio do nada ninguém ouviu os gritos da mulher.

Foram gritos de prazer.