Eu queria comer um pastel
com vinagrete.
O povo tirando notas amassadas do bolso de trás.
– Tio, me paga um pastel?
O óleo manchando o guardanapo.
Calculo quantas veias serão entupidas.
Eu queria comer um pastel.
‘O polícia’ puxando o menino pela gola da camiseta puída – com a  propaganda de um vereador de eleições passadas.
‘O polícia’ chuta a bunda do menino.
– Sai, Sai, Sai.
Eu queria comer um pastel.
A senhora diz que infelizmente a feira está cheia de marginal.
Uma pomba recolhe farelos no chão.
A senhora sugere cercar a feira.
– Coloca um portão. Só entra quem mostrar que mora na região.
Eu queria comer um pastel.
A moça negra empurra um carrinho
e espera, com paciência, a patroa tomar
caldo de cana detox
sem cana.
Um cachorro de três patas brinca com um copo plástico.
Um caminhão passa tocando o jingle.
Vote, vote, vote.
O menino volta.
Vagarosamente.
A senhora avisa ‘o polícia’
‘O polícia’  vai até o menino e mostra o revólver na cintura.
O menino sai resmungando
A senhora diz que além do portão e do porteiro, a feira precisa de seguranças.
Eu queria comer um pastel.
Os meninões malhados, fortões de academia, mordem caquis distraídos.
De longe, parece sangue
que escorre pelo queixo
dos filhos dessa pátria tão gentil.
Chegou a hora da xepa, Brasil.
E eu só queria comer um pastel.