profundo

(Inspirado pela canção  I Never Said I Was Deep – de Jarvis Cocker)

Ele não é tão profundo quanto parece.

Talvez  o jeito de fumar. Qualquer cigarro faz de um homem raso um Camus de ocasião. A mecânica da dor tem sempre um cigarro na boca, uma fumaça que sobe em espiral e um olhar pairando sobre coisa nenhuma.

Olhar para o nada, do jeito que ele faz, é truque barato. Não tem nada pra se ver ali. Não tem beleza, natureza ou alma penada. Aposto o que você quiser que, ao olhar para o vazio, ele deve pensar em algo como “pizza”.

Ele não é tão profundo quando parece.

As opiniões dele estão, desde o advento da internet, em liquidação. São como toalhas de hotel. São capas de chuva de R$5. São decepcionantes como sachês de catchup depois de abertos.

Ele não é tão profundo quanto parece.

Grande coisa transar em silêncio – feito um monge priápico e esquisitão. Ele não te diz nada porque não tem nada pra dizer. Como respeitar um sujeito que sequer deseja saber se foi bom pra você. Aliás, foi bom pra você?

Ele não é tão profundo quanto parece.

Aquilo foi jogo de cena. Pensou na ex. No amor da vida. Vontade de chorar blá blá blá. Cascata. Aposto dinheiro que aquilo foi um teatrinho pra se livrar de você, ir embora, encontrar outra, dormir sozinho. Pinto pequeno, aposto.

Ah, ele disse que te amava? Nossa, que coisa! O problema do ‘eu te amo’ é que ele cabe em um twitter. Sete letras sem contar os espaços. Fácil de usar. Prático. Tipo um Veja Multiuso. Falou. Escapou. Foi um ‘eu te amo’ ligeiro, inserido em um contexto de pós-verdade, entende? Fake news. You are fake news.

Qualquer idiota diz eu te amo. Foi da boca pra fora. E esse coração que você supõe ter visto sair da boca dele era de plástico.

Engana bem, né? De longe, beira a perfeição. Até bate – bastam duas pilhas pequenas. Funciona feito uma flor dançarina. Vende lá na Liberdade. Não é caro.

Ninguém morre por engolir um coração de plástico. Não é fácil de digerir, mas não mata. O gosto, sim, é ruim. Plástico.

Ele não é tão profundo quanto parece.

Eu também não sou.

Mas eu nunca disse que eu era profundo.  Nunca mergulhei em nada que ‘não desse pé’. No máximo, deixei a água bater na cintura. Gosto das conchas vagabundas que se entregam, sem luta, lá onde as ondas morrem. Lá onde as sandálias desprezadas pelo destino procuram um pé inchado.

Eu disse outras mentiras, talvez. Mas nunca sobre como eu me sentia. Nada sobre a humanidade e seus descaminhos. Nem um ‘pio’ sobre a impermanência das coisas, a sensação de finitude e solidão.

Eu nunca disse que eu era profundo.Verdade, contei outras mentiras. Poucas. Mas  não existe conversa adulta sem que umas mentirinhas saltem pela boca feito peixinhos de aquário em convulsão. Quando você se dá conta, a mentira já entrou em contato com o oxigênio e se espalhou em pequenas partículas de falsidade. Sobre elas, as mentiras, posso me desculpar. Aceitá-las ou não é uma prerrogativa sua.

Eu gosto de você.

Não te amo. Gosto de você.

Eu nunca disse que eu era profundo.

Ele é um mentiroso.

Eu não.