carnival1

Eu ia te beijar no bloco. Depois da Catuaba. Do segundo copo. Eu ia te beijar no bloco. Quando a banda tocasse aquela marchinha sobre a tonteza da lua e a turma gritasse “e as pastorinhas”. Eu ia te beijar no bloco. No meio da muvuca. Enrolado em serpentina. Com os dedos apontando o céu. Antes de entrar na Consolação. Ou antes da chuva, chuá, chuá. Mesmo com o pé pisado. Inchado. Eu ia te beijar no bloco. Quando o homem da CET fechasse a via, quando já não se enxergasse a avenida, quando você passasse com mais três amigas. Eu ia te beijar no bloco. No refrão da música. Naquela parte meio esquisita. Na aeróbica da alegria. No calor da fantasia. Eu ia te beijar no bloco. Na fila do banheiro químico. No desmaio de um amigo. Antes que engasgado de espuma eu tentasse dizer algo interessante. Eu ia te beijar no bloco. Com cerveja quente no copo. Confetes no dente. Com a chegada da PM. Eu ia te beijar no bloco. Quando a polícia avisasse, quando a vizinhança reclamasse, quando o som, de repente, acabasse. Eu ia te beijar no bloco. Antes que levantassem o muro, antes que eu levasse um murro, antes que eu estivesse quase desistindo. Antes que eu pudesse me lembrar que ‘nem curto tanto carnaval’. Eu ia te beijar no bloco. Se você quisesse. Se você pedisse. Se você chamasse do alto do trio elétrico. Se você me tirasse os pés do chão – como naquela música baiana. Eu ia te beijar no bloco. Até a quarta-feira de cinzas. Depois da apuração. Da escola campeã. Do desfile dos desesperados. Na fila do pão. Na tristeza inclemente de depois. E depois.