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A camiseta do Junior está ensopada. Minhas mãos tremem no volante. Quase não sinto meu corpo. Sei que acelero vendo a casa sumindo no retrovisor do carro. Penso que nunca mais devo pisar naquele lugar. A casa volta a aparecer no retrovisor. É como se ela me avisasse que eu não tenho querer. Como se me lembrasse de algo que eu deixei pra trás. Eu podia chamar a família de Fabiana de estranha. Mas a palavra não é essa. E não estou em condições de procurar palavras certas. Não existem palavras certas. Só lamento não trazer o gato comigo. O gato?

Eu poderia ir pra casa.

Sem sono.

Ou por algum temor em perder meu emprego ridículo, que sustenta minha vida ridícula, pagando meus gastos ridículos, sigo o que o recado no meu celular ordena: Operação Ricardinho. Urgente. Balada nos Jardins. Alto risco de confusão.

Ou será porque tenho um desejo invertido de ver os pratos caindo. Sim, os pratinhos da minha vida estão girando tão rápido, mas tão rápido, que posso imaginá-los sendo lançados pelo espaço; e por de trás de estrelas carente e apagadas, posse prever a transformação dos inocentes pratinhos em cometas assassinos; cometas que viajam o cosmo e voltam para se chocar contra esse planeta ridículo.

Feito um tapa na cara.

Um cometa que vai atingir o planeta que é a casa de Fabiana, Frederica, Junior, Joana, a casa do bigode do Isaías, do velho que ronca na cadeira, do Candidato, do filho do candidato…

Não estou bêbado. Mas sinto algo parecido com a embriaguez. Estado perfeito para cuidar de um delinquente mimado.

Chego à balada. Lugar ridículo. O segurança percebe o meu estado e tenta impedir minha entrada. Sem discutir, abro a carteira e escorrego 100 reais para dentro do paletó do sujeito. Não fosse a corrupção cotidiana esse País viveria o imobilismo total. A corrupção miúda é a locomotiva que nos leva pra frente.

Entro. O lugar é escuro. O que se enxerga são flashes. Demoro pra me acostumar. A sensação é de câmera lenta.  Vou tateando no claro/escuro. A música me atinge feito um soco. Uma britadeira anfetaminada, uma broca, o motorzinho que se ouve na cadeira do dentista, o aparelhinho que faz ‘zimmmm’, o som intermitente da broca invadindo o meu cérebro macio. A mola que sai do cuco da sala de Frederica. O ronco daquele velho. O ronco.

Reconheço Ricardinho. Alguém levanta o garoto pela cintura. Ele toma alguma coisa. Uísque com energético. Odeio que misturem qualquer coisa no meu uísque. Não me envenenaram na casa de Frederica. Eu tomei alguma coisa lá? Vou me aproximar de Ricardinho. Ele não pode arrumar briga. Ele não pode dirigir bêbado. Ele não pode ser pego com cocaína. O pai dele precisa ser eleito o próximo prefeito de São Paulo. O pai dele é um homem de família. O pai dele paga o meu salário.

Ricardinho dança. Dançar pode. Acho. Vou ficar por perto. Rodeá-lo. Sou seu anjo da guarda. Seu guarda-costa. O cupincha do pai dele. O pau-mandado do patrão.

Ricardinho parece sair da roda. Está com um amigo. Vai ao banheiro. Sei. Sei bem o que é isso. Vai meter o narizinho numa nuvem de pó, vai se encher de cocaína e fazer alguma merda. Vou atrás. Vou ao banheiro também.

Ele se tranca em uma das cabines. O que eu faço?

A porta da cabine está fechada. Penso na porta do quarto de Fabiana. O que ela fazia lá dentro? Por que não saiu? Não era eu quem ela queria ver? Não era eu o cara por quem ela se apaixonou há mais de 20 anos? Não sou eu o cara que ferrou com a cabeça dela? Não sou eu o cara que ela acha que abusou dela quando tínhamos, sei lá, 15 anos? Eu sou o cara que devia meter o pé na porta e tirar toda essa história a limpo…

Eu meti o pé na porta.

Mas não era o quarto de Fabiana.

Era a porta do banheiro da balada.

Dentro dela, Ricardinho beijava o amigo.

Eles me olharam assustados.

– Desculpe, desculpe, eu, eu….Desculpe, Ricardinho.

– Quem é você? Vou chamar o segurança e…

– Calma, calma… eu trabalho para o seu pai.

Pronto. Não devia ter dito isso. Ricardinho me olhou com uma fúria que eu não lembro de ter visto nem nos olhos da minha ex. Um olhar de desprezo absoluto Ele me empurrou com violência e saiu correndo, deixando o amigo para trás.

Fui atrás dele. Corri no meio daquela selva festeira. Esbarrei em corpos. Esbarrei em copos e devo ter quebrado alguns. A música eletrônica acelera meu ritmo. Estou dentro de um filme. O coração de alguém vai explodir. Que não seja o meu.

Ricardinho sai pela porta sem pagar a comanda. Os seguranças vão atrás. Ele vai apanhar. Vai ser um escândalo. Eu vou atrás e grito “eu pago”.

Os seguranças param. Eu pago, de fato.

Ele cospe na minha cara e vai para o carro. Vou atrás. Digo que precisamos conversar. Parece briga de namorados. É o que as pessoas pensam. Não me importa o que as pessoas pensam. Ricardinho entra no carro. Seguro a porta. Entro também. Ele chora feito um menino assustado. Não é um babaca. É só um garoto assustado.

– Eu não aguento mais, cara. Não aguento. Não tenho culpa de ser filho dele. Eu não queria ser filho dele. Eu só quero ter minha vida. Eu quero ser livre, sacou? Eu mereço ser livre! Eu não sou o meu pai. Eu não acredito no que ele diz. Eu não acredito nas coisas que ele acredita. Eu conheço ele, cara. Eu não voto nele. Eu sou o filho que ele quer apagar. Eu sou o filho que não cabe na propaganda eleitoral gratuita. Eu sou o filho que mancha esse engodo de família,  de família de propaganda de margarina que ele inventou pra ele… Eu quero sumir, cara…

– Calma, calma, eu tô do teu lado, cara. Eu não sabia…eu… eu…

Não consigo me explicar. Meu estado é pior do que o dele. Não, não é. Ele acelera o carro. Vai rápido demais. Vou tentando acalmá-lo. Peço para que ele preste atenção. Que olhe pra frente. Ricardinho faz zigue-zague, zigue-zague, zigue-zague. Vejo uma espécie de pássaro no vidro do carro.  Um anjo. Pazuzu.  Ricardinho grita. Quer morrer. Acho que uma das rodas pegou no meio-fio. Quem quer morrer aqui? Não eu.

O carro capotou. Uma, duas vezes. Simples assim.

Apago. Volto. Apago de novo. Ricardinho continua apagado. Não vejo sangue. Vejo sangue. Apago de novo. Volto. Isaías está do lado do carro. O bigode dele do lado do carro. Apago mais uma vez.

Continua.

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