Pazuzu1

Crianças, um conselho: fujam. Tão logo a oportunidade apareça, no primeiro descuido do destino, fujam. Fujam de suas famílias, amigos, trabalho e vida. Não existe nada mais heroico do que bater em retirada.

Eu podia ter fugido. Não o fiz.

A família correu para o quarto de Fabiana. O grito veio de lá. Tive a oportunidade de abandonar a casa. Tive essa chance por uma fração de segundos, pelo tempo de uma decisão simples e objetiva. Tenho problemas com decisões simples e objetivas.

Frederica, Isaías, Junior e Joana saíram na minha frente. Fiquei sozinho por uns 20 segundos. Me detive em dois momentos: com o gato que me olhava com uma familiaridade desconcertante – principalmente depois de ter ouvido o nome do meu cachorro desaparecido; e na sala, ao notar que Alencar continuava dormindo e roncando.

O gato e o velho me fizeram ficar para trás.

Subi as escadas que levavam aos quartos da casa. A família (e o bigode homicida do detetive Isaías) se concentravam atrás de uma porta verde. O quarto de Fabiana, acho.

– Filha, filha, tá tudo bem? – pergunta uma aflita Frederica.

– Ô, Fabi. Seu namorado tá aqui… – grita o Junior.

– Ele veio te ver, maninha! Olha, não pensei que era tão gatinho – comentou Joana.

Do outro lado da porta verde, silêncio. Um silêncio que se esparramou por alguns segundos até o instante em que um urro (mais um som entre tantos outros) preencheu o ambiente com toda sua intensidade aterrorizante.

Isaías tentou forçar a porta com o ombro – puro mise en scène . Uma corrente de ferro impedia que a porta fosse totalmente aberta. Tínhamos apenas uma fresta mínima, uma brecha para espiar o que naquele quarto acontecia, um vão estreito para os mistérios de Fabiana.

Mas ela foi mais rápida e grudou o rosto naquele pequeno espaço. Seu olho direito, um olho castanho, uma pedra, uma bola de gude nervosa, nos espionava de dentro do quarto.

As pálpebras dela tremiam. Acho que a minha também.

Era como se nós, os outros, estivéssemos trancados. E ela, a dona daquele olho sem corpo, nos observasse curiosa.

Frederica tentou acalmá-la. E pediu para que eu falasse alguma coisa. Falar o quê?

– Oi, Fabiana. Aqui é o Lúcio, lembra de mim? Do tempo da escola. Acho que a gente podia conversar, não? – disse, mas sem muita confiança.

Fabiana não respondeu.

Queria ser uma mosca para entrar naquele quarto e entender o que está acontecendo. Não posso. Já fui um rato.  Mas não sou uma mosca. E já não estou entendendo nada. Acho que alguém deixou uma janela aberta. Um vento forte tomou todo o corredor. A camiseta velha do Junior não me protege. Sinto frio.

Lúcio não pode entrar aqui. Eu posso. E se você quiser pode entrar comigo. Quem eu sou? Sou o amuleto no pescoço de Fabiana. Prazer, Pazuzu! Sobre a cama dela, três vestidos. Um vermelho mais ousado; um escuro bastante sóbrio e um florido. O pior é o florido – que não orna com ela, não orna com a casa, não orna com nada. O vestido de noiva continua embaixo da cama. Vai chegar a hora certa de tirá-lo da caixa. Ela também está com a cara borrada de maquiagem. Com a cara de quem tentou se arrumar, de quem tentou ficar bonita para alguém especial. Mas ela não conseguiu. Não conseguiu escolher o vestido. Não conseguiu se maquiar com elegância. Não conseguiu controlar o tremor nas mãos. E, no meio da confusão, esse Pazuzu soprou um pouco de coerência nos ouvidos delicados da mulher. “Vocês não são namorados. Você inventou tudo isso. Tudo isso só aconteceu dentro da sua cabeça. Ele está aqui porque sua mãe insistiu. Ele tem medo que você faça alguma basteira. Ele não quer ser acusado de estupro”. Ao mesmo tempo, Pazuzu soprou mais fantasia, soprou aquelas cenas inventadas, mostrou como foi bonita aquelas festa junina em que eles formaram um par, soprou aquela brincadeira de beijo, abraço ou aperto de mão, soprou aqueles dedos que tocaram na intimidade dela durante uma excursão de colégio. Pazuzu gosta das coisas assim. Por enquanto. Ainda não é a hora do encontro. Eu tenho planos. Voltem para o corredor. Deixem Fabiana em paz.

Frederica foi acalmando a filha. Disse que se ela quisesse, se achasse melhor, eu poderia voltar outro dia. Sim, por favor, deixe que eu volte outro dia. Que eu volte com uma junta médica e com a polícia – pensei, mas sem dizer.

Fabiana foi relaxando. Frederica estava sendo bastante razoável. Uma mulher normal. Bem diferente do resto da família. Pelo menos parecia uma mãe carinhosa e preocupada.

Quando a situação parecia sob controle, um homem vestindo uma máscara de coelho apareceu atrás de mim com um machadinho nas mãos.

– Junior, larga isso – gritou Frederica.

– Eu só quero ajudar! Vamos derrubar essa porta e libertar a Fabi – argumentou Junior – o homem vestido de coelho.

– Agora, não… – repreendeu carinhosamente Frederica.

Fabiana se afastou da porta. Achei que ela abriria. Esperamos. Por puro reflexo, passei as mãos no meu cabelo, arrumei a camiseta do Junior e me empertiguei. Queria que ela tivesse uma boa impressão do homem por quem ela se apaixonou na infância.

Ela não abriu a porta verde.

Joana me deu um abraço. Não entendi o motivo. Os seios dela roçaram no meu peito mais uma vez. Não dissemos uma única palavra. O perfume dela era bom.

Não ventava mais no corredor.

Meu celular tremeu. Recebi uma mensagem: Operação Ricardinho. Urgente. Balada nos Jardins. Alto risco de confusão.

Não queria ser baba de filho de político. Mas, agora, isso me parece uma bênção. Salvo pelo Candidato. Ou pelo filho desmiolado dele.

Mostrei a mensagem para Frederica e Isaías.

– Preciso ir embora – disse.

Frederica concordou que era o melhor a fazer. Isaías me segurou pelo braço e, olhando nos meus olhos, avisou que tínhamos um acordo. Não sei de que acordo ele estava falando. Mas prometi que voltaria. Amanhã ou depois. Ou tão logo colocasse o filho do Candidato para dormir em um local seguro e confortável.

De trás da porta verde, Fabiana disse ‘tchau’.

Respondi e prometi voltar.

Ela ficou em silêncio.

Frederica me acompanhou até a porta.

Passamos pelo velho que continuava roncando.

O gato também me acompanhou. Miou. Tentou me dizer algo. Quando Frederica abriu a porta, ele tentou fugir. Mas foi apanhado pelo rabo. Queria levá-lo comigo. Mas não tive coragem de pedir. Eu tinha 40 minutos para chegar na balada. Vou correr.

Prazer, Pazuzu. Pazuzu gostou. 

Continua.

Trilha sonora do episódio 8:

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