house1

Não dirijo bem na chuva. Nem no seco. Tive outro dia ruim na agência. Como todos os outros dias ruins. Virei a noite passada lendo coisas sobre as doenças de Fabiana. Acho que no fim ela vai querer me matar. No rádio do carro, notícias sobre uma possível vitória de Donald Trump, religiosos dando palpite sobre o famigerado cometa e algo sobre os moradores de rua boiando no rio Tietê. Já são 12 corpos. Ninguém se importa.

Me perdi três vezes. Nem o GPS conseguiu me ajudar. É como se o endereço não existisse. O Waze me mandou entrar em uma rua em que eu já passei cem vezes.

Como eu não reparei naquela viela?

Única casa.

Tal um monumento teimoso, sobrevivente de intemperes, combalido, mas em pé. Talvez, necessitada de uma reforma, uma mão ou duas de tinta, uma readequação na cerca e a contratação urgente de um jardineiro.

Chove fino.

O jardim descuidado cria armadilhas naturais, quase tropeço em um tronco retorcido. Penso que torcer o pé seria uma desculpa para não entrar. O barulho de uma coruja ronronando. Foi um aviso.

Antes que eu encostasse na porta, ouço um grito atrás de mim. Quando me viro, só tenho tempo de entender que era um homem vestindo roupas camufladas. Sou alvejado. Quatro ou cinco tiros. Caio com as costas na porta de entrada. Minha camisa toda vermelha. Sangue? Fim.

Balas de paintball.

Frederica abre a porta e ralha com o homem camuflado, que deve ser irmão de Fabiana.

– Junior, quantas vezes eu te disse que não é pra brincar disso com estranhos.

– Desculpa, mãe. Achei que era ladrão.

– Fosse ladrão, você já estava morto.

– Não, mãe, eu aceitei ele primeiro.

– Entra, moleque, entra que o jantar está pronto.

– Ô. Foi mal, moço.

Junior, deve ter uns 30 anos. Mentalmente, uns 6 ou 7.

– Acho que o Junior tem uma camiseta que vai servir em você – disse Frederica.

– Bom, vou ter que aceitar – respondi inconformado.

Já sem camisa, entrei na sala. O Junior ficou do meu lado, me olhando abobado.

– Você é o namorado da Fabi? – perguntou.

Antes que eu dissesse não, fui interrompido por dois sons. Sons diferentes e parecidos. No canto da sala, um senhor roncava, dormindo em uma cadeira de encosto alto. Pela idade, deve ser o marido da Frederica. Achei que era viúva.

O outro som vinha do tapete, uma menina. Não, uma mulher. Acho que quase da mesma idade do Junior. Provavelmente outra irmã Fabiana. De collant de ginástica, ela fazia abdominais. Misturava sons da contagem do exercício com gritos quase sexuais. Ela não parou o que estava fazendo para se apresentar.

Um Junior, um ronco e urros quase sexuais. Depois teve o cuco marcando uma hora cheia. Só que cuco não havia. Do relógio, saltava uma mola triste.

Quem apareceu com uma camiseta branca foi o detetive Isaías.

– Acho que deve servir em você, Lúcio.

Peguei a roupa sem esconder o meu desprezo por aquela figura.

– Frederica foi chamar a Fabiana – disse o detetive.

Enquanto o velho dormia, a garota fazia abdominais e o Junior me media com os olhos, tentei falar com o Isaías sobre o tema que mais me afligia.

– Eu acho que o suposto estupro precisa ser investigado. Eu quero…

– Esquece isso, rapaz. Já são mais de 20 anos. O importante é que você está aqui pronto para dar uma chance ao amor.

– Não é isso. Não…

A garota das abdominais gritava como se evocasse um orgasmo transcendental; o velho roncava como se fosse Zeus atirando raios sobre os mortais e o Junior me cutucava pedindo para que eu fosse conhecer sua coleção de Comandos em Ação.

Frederica voltou avisando que Fabiana estava se arrumando e que logo desceria do quarto.

– Ela está ansiosa, normal. Imagina, esperou tanto tempo por esse dia…

Comecei a ficar preocupado com a hipótese de eu não conseguir sair daquela casa.

Frederica tratou de apresentar os familiares da sala. O velho roncando era mesmo o seu marido, o Alencar; a garota das abdominais era Joana (que, na verdade, era gêmea do Junior) e o Junior, bem, Junior era o cartão de visitas daquela família.

Isaías, o do bigodinho fino feito um objeto de tortura, era só uma visita – mas mantinha uma estranha intimidade com Frederica. Amantes? Impossível saber, ainda.

– Vamos para sala de jantar! Fabi, já deve estar descendo, hoje é um dia muito importante pra ela.

Quando Joana levantou do tapete, reparei no quanto ela era gostosa. Não estivesse tão terrificado por estar naquela casa, teria tido uma saudável ereção.

– Oi, você é o namoradinho da Fabi? – Perguntou Joana.

Antes que eu dissesse “não, jamais”, ela me abraçou de um jeito exagerado, esfregando seus peitos duros no meu peito.

Isaías e seu bigodinho nazista ensaiaram um sorriso de cumplicidade. Desviei o olhar e segui Frederica em direção à sala de jantar – pensando que se Fabiana fosse tão interessante quanto a irmã das abdominais eu podia até dar umas voltinhas com ela.

Fomos todos para a mesa de jantar.

Exceto Alencar – que continuava dormindo e roncando na sala.

Na mesa, um peru de propaganda (ou de Ação de Graças se nós fossemos americanos); um vinho que me pareceu barato e uma maionese com aspecto pouco convidativo.

Frederica sugeriu que todos fizéssemos uma oração. Tentei me manter a parte e, de olhos abertos, presenciei aquela família rezando algo esquisito,  e cheio de onomatopeias, para um tal de anjo Pazuzu. Guardei o nome na memória para procurar no Google depois.

Continuei temendo por minha integridade naquele lugar.

O cuco tocou mais uma vez. Imaginei aquela mola triste saltando do relógio.

O velho continuava roncando.

Tive medo de ser envenenado.

Antes de provar o peru, disse que precisávamos conversar sobre a saúde de Fabiana e que eu queria ajuda-la…

– Filho, você já está sendo incrível estando aqui com a gente.

– Mas acho que ela precisa de…

– Vocês sabiam que o Lúcio trabalha com política? – cortou Frederica.

– Você conhece o presidente? – perguntou Junior.

– Não, não conheço…

– É verdade que ele tem um pacto com o…

– Junior! – gritou a mãe dele.

– Ah, então você pode ajudar a divulgar o meu canal de YouTube – falou Joana.

– Se eu puder…

– É um canal sobre abdominais. Dicas de abdominais, melhores abdominais, a cultura e a filosofia das abdominais… Depois eu te mostro no meu quarto um vídeo que eu fiz das minhas abdominais.

De repente, entra na sala de jantar um gato preto. Ele chama minha atenção de um jeito estranho. Fixa o olhar em mim e dá uma miada longa e profunda.

– O membro mais recente da família. Apareceu aqui em casa faz uns 6 meses – conta Frederica.

– Oito meses, vinte sete dias, 13 horas e 45 minutos – corrigiu Junior.

Não pode ser. Não faz sentido. O gato se aproximou de mim, esfregando seu corpo inteiro nas minhas pernas.

– O senhor Lúcio gosta muito de animais. Alguma notícia do seu cachorro desaparecido? – perguntou o bigode de Isaías.

– Não. Ainda não – respondi sem tirar os olhos do gato.

– Como ele se chamava? – perguntou Junior.

– Sazerac.

Ao ouvir esse nome o gato preto se arrepiou inteiro. Eu não sei como explicar, mas esse gato é…

Interrompendo meus pensamentos, Frederica levantou a taça de vinho e sugeriu um brinde. Quando estávamos prontos para o tim-tim, ouviu-se um grito vindo do andar de cima.

Muitos sons na casa do sono profundo.

Minha noite estava apenas começando.

Continua.

Trilha sonora do episódio 7:

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