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Confiar na memória. Tem que. Não é uma opção. Ponto. Ou você confia na própria memória ou está morto. Ou louco. Quando o detetive Isaías, com o seu bigodinho impertinente, me entregou aquele envelope pardo, eu ainda confiava na minha memória. Tinha com ela (a memória) uma relação amigável.
Agora, esquece.
Dentro do envelope havia um laudo do Instituto Médico Legal. Uma página amarelada e desmilinguida com uma data pré-histórica: 1990. Nele, até onde eu consegui entender, a constatação de que Fabiana havia sido vítima de abuso sexual. Ainda que, segundo o laudo, não houvesse sinais de penetração, as contusões e hematomas ao redor da genitália poderiam indicar que a garota havia sido tocada de forma imprópria e/ou violenta.
Gelei.
– O que você está querendo insinuar com isso? perguntei de um jeito retórico.
– Nada. Apenas considero uma informação importante…
– Eu jamais seria capaz de…
– Vocês tinha 14, 15 anos…
– Jamais, entendeu? Jamais.
– Calma, rapaz. O fato é que a família de Fabiana nunca levou esse assunto adiante, acredita? Fosse uma filha minha, eu iria até o inferno pra tirar essa situação a limpo. Já Frederica e o marido decidiram, simplesmente, esquecer… Curioso, não?
– Não tem nada de curioso. E o que você está querendo insinuar é muito, muito sério. Eu…
– Eu não estou insinuando. Não estou acusando. Não estou dizendo que você fez alguma coisa. O próprio laudo é inconclusivo a esse respeito. Só acho relevante que o senhor saiba mais sobre o estado de Fabiana – e que leve essa informação em consideração na hora de aceitar ou não o convite para jantar na casa de Frederica.
– Inacreditável…
– Ninguém naquela família gosta de tocar nesse assunto. É um tabu pra eles. Para Frederica esse é um assunto morto. Tão morto que ela não ousou invocá-lo quando do encontro na cafeteria. Se estou aqui, se trouxe uma cópia do laudo para você, foi simplesmente para que você tomasse consciência do que aquela garota já passou. Não estou te chamando de estuprador. Estou apenas abrindo uma nova janela nessa história.
– Por favor, saia daqui.
– Se acalme. Nessas horas de nervoso é que a gente pode perder a cabeça, ter algum branco, um lapso…
Isaías foi embora com seu bigodinho teocrático. Deixando um bode no meio da rua, na entrada do meu prédio.
Só o fato de alguém achar que eu…
***
Já no apartamento, me atirei no sofá. Deitado tentei reconstruir aquela excursão escolar, aquela brincadeira de ‘beijo, abraço ou aperto de mão’. A risada dos colegas, a foto que fui obrigado tirar ao lado dela, um coro de ‘com quem será, com quem será que Fabiana vai casar, vai depender, vai depender se o Lúcio…’. Depois, cada turma, dividida entre meninos e meninas, seguiu para os seus respectivos alojamentos.
Depois das 22h, meninos e meninas habitavam espaços diferentes e não comunicáveis daquele sítio.
Nem tanto. Eu, o Orelha e o Durval conseguimos escapar, conseguimos espionar os arredores do alojamento feminino, conseguimos até tomar uma catuaba (ou algo semelhante) sem que professores ou instrutores nos importunassem (o Orelha entrou com duas garrafas dentro da bagagem de mão – escapando da revista dos adultos). Eventualmente, roubamos uma calcinha que estava pendurada em um varal. Só isso – que eu me lembre. Nós aprontamos, nós infringimos as regras do acampamento, nós agimos como moleques sem nada na cabeça… Mas eu não encostei na Fabiana (nada além daquele beijo sem alma ou língua), não entrei no alojamento feminino, não estive sozinho com ela, não, não… Eu lembraria. Eu lembraria?
Óbvio, não consegui dormir. Não consegui tirar da cabeça o tal laudo. Deve ser falso. Mas só a fato de alguém pensar que eu poderia… só uma suspeita mínima já me ofende, já me perfura o estômago, já me deixa maluco. Eu poderia? Eu, o Orelha e o Durval… Nos ficamos o tempo inteiro juntos? Não, certeza que não. Se alguém encostou naquela garota não fui eu. Se alguém encostou naquela garota… Sim, ela acha que fui eu! Mais de 20 anos depois, Fabiana ainda deve achar que fui eu. Eu, eu, eu não posso conviver com isso.
Isaías maldito.
Ele conseguiu o que queria.
Precisava conversar.
Liguei pra minha ex.
Menti.
Disse que tinha notícias do Sazerac.
Marcamos um bar para o dia seguinte.
***
Ela atrasou. Desde antes do nosso namoro, ela tinha no atraso um traço pessoal.  Quase charmoso. Quando Carla chegou, eu já estava no meio do segundo copo, mas menti – dizendo que tinha acabado de sentar.
– Novidades sobre o Sazerac?
– Não.
– Então, tchau, Lúcio – disse antes mesmo de se sentar.
– Espera, eu preciso mesmo conversar.
Carla suspira profundamente e se senta na minha frente.
– Eu sou uma pessoa boa? – pergunto.
Carla se assusta com minha pergunta e faz uma cara de quem está ponderando, colocando prós e contras na balança do entendimento.
Enquanto ela decide, vou contar como a gente terminou. Ainda não deu um ano. Continua quente pra mim. Foi uma coisa estúpida. Até porque já tinha acabado pra ela mesmo antes daquilo. Eu já era um estorvo. Dei brecha e ela se aproveitou.
Era domingo. Marcamos no Parque do Ibirapuera. Piquenique. Coisa escrota piquenique. Ela, claro, atrasou. O Sazerac estava do meu lado, quietinho, entretido com um osso. Levei um livro de colorir para matar o tempo. Sabia que ela se atrasaria. Tinha uma bolsa com dois sanduíches de queijo, uma caixa de lápis de cor e um livro. Então, comecei a colorir o meu segundo Jardim Secreto.
Estava ficando bonito… mas alguém colocou a mão no meu ombro. Foi Carla. Ela estava linda.
– Oi, não trouxe o Sazerac?
– Trouxe.
Pois é, o cachorro sumiu enquanto eu aliviava o meu estresse colorindo um livro.
Carla ficou maluca. Me chamou de retardado. De idiota. Respondi no mesmo tom.
Nos separamos naquele instante.
Eu passei os últimos meses transando com garotas que eu não sei o nome.
Ela começou a namorar sério duas semanas depois do nosso término. Já mora junto com o fulaninho.
Nos perdoamos.
Ela já queria terminar comigo antes do desaparecimento do cachorro.
Me esqueceu em 15 dias.
Fabiana gosta de mim há quase 25 anos.
– Você é uma pessoa boa, mas de um jeito diferente. Você é difícil, mas um bom sujeito. Você é irritante, obsessivo, meio maluco, mas não é ruim – responde Carla.
Conto sobre a Fabiana. Não tudo. Não sobre a insinuação de estupro. Conto só sobre a paixão encruada de infância e dobre o encontro com a dona Frederica. Carla se diverte. Ri de chorar. Diz que eu mereço. Peço um conselho.
– Vai lá conhecer a mulher. Quem sabe, depois de te encontrar, ela para de idealizar, ela consegue se livrar disso aí que ela sente…
– Vou decepcioná-la, claro.
– Vai. Ainda bem, não é? O triste é que ela vai perceber que desperdiçou mais de 20 anos de vida, os melhores anos…
– Não precisa me humilhar.
– Imagina quando ela souber que você joga cigarros no vaso sanitário, quando souber que você é viciado em livros de colorir, quando…
– Você gostou. Um dia…
Ela muda de assunto. Não está interessada na minha vida sentimental. Nem quer tirar o caroço dessas azeitonas do passado recente. Pergunta sobre o meu trabalho. Conto que serei baba do filho problemático do Candidato. Ela ri de novo e me compara ao equilibrista de pratos. Reclamo, digo que essa metáfora é minha. Ela rebate, diz que sempre usou essa imagem e que eu devo ter roubado dela. Pode ser.
Pergunto se ela está bem, se ela já largou o fulaninho e se pensa em voltar pra mim.
– Jamais.
Ela fala um “jamais” rindo, fala que não me odeia, mas que a fila andou. Andou em duas semanas. 15 dias. Andou rapidinho.
Pergunto se o fulano é bom de cama.
Ela diz que sim.
Pergunto se é amor.
Ela diz que sim.
Pergunto se ele é muito melhor do que eu.
Ela diz que sim.
– Eu já te machuquei alguma vez?
– Em que sentido? Acho que “everybody hurts, sometimes”.
– Não. Digo, fisicamente.
– Que pergunta idiota! Claro que não!
– Sei lá…
– Lúcio, acho que é hora de esquecer o Sazerac e seguir adiante.
Esquecer o Sazerac incluía esquecê-la também.
Carla se levanta e solta um “mande minhas lembranças para a Fabiana”. Pergunto se ela tem medo do cometa. Ela não ouve a pergunta.
Carla sai do bar, pego o celular e ligo para Frederica: “Vamos marcar…”
Continua

Trilha sonora do episódio 6:

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