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Essa coisa de amor anda supervalorizada. Falam desse sentimento como se ele fosse um monólito. Como se fosse extremamente sólido, inabalável ou “até que a morte nos separe”. Pois o amor é outra coisa. Amor é Geleca. É massinha de modelar. É Transformer. É mutante. Poucas coisas são tão instáveis como aquilo que chamamos de amor. Amor, que vai dormir encantado, pode acordar de cara amarrada, indiferente ou apenas diferente. Nosso amor não é confiável. Eu não tatuaria nenhum amor no peito. Amor é para dissolver em água – e comer feito Miojo.
Por isso, a suposta fixação de Fabiana por mim parece algo extraterrestre, algo que não me diz respeito. Não quero me meter nisso. Vou declinar do convite para conhecê-la e esperar, “pacificamente”, a reação de Frederica, do tal detetive e de qualquer outro membro da família (se é que existe mais alguém além de Frederica e Fabiana).
Antes de sair de casa, enchi a vasilha do Sazerac e guardei meus livros de colorir em uma gaveta. Apesar dos berros do outro lado da linha, e a urgência que eles indicavam, ainda parei na padaria para comprar um maço de cigarros e conversar com o Lino – o morador de rua que esta investigando o desaparecimento do meu cachorro.
– Chefia, a coisa tá feia. Tem um monte de cachorro perdido no bairro. Acho que foi uma espécie de revolução dos bichos…
– Quer dizer que você acredita que o desaparecimento do Sazerac faz parte de uma espécie de ação orquestrada?
– O senhor fala muito difícil. O que eu quero dizer é que aí tem coisa…
Antes que a conversa tomasse um rumo ainda mais surreal, cortei o assunto oferecendo uma nota de dez reais para ele.
– Tô até com vergonha de aceitar…
– Deixa de frescura, homem. Pegue aqui o dinheiro e continue de olho aberto.
Lino me sorriu com seus dentes estupidamente brancos e pegou a nota das minhas mãos.
– O senhor é um homem bom. Por favor, não vá se meter em confusão, não se deixe levar por essa coisa louca que o cometa anda espalhando por aí…
– Que coisa?
– Não sei o que é. Só sei que não é bom. Desde que esse treco entrou na nossa vida, muita coisa estranha tem acontecido. Tem cachorro sumindo e irmão de rua aparecendo boiando no rio Tietê.
– Como?
– O senhor não lê jornal?
– Não.
– Como eu costumo dormir em cima das notícias ou coberto por elas, sou sempre bem informado – disse orgulhoso.
– Vou procurar saber…
Me despedi de Lino, mas fiquei com essa história dos mendigos mortos na cabeça. Preciso voltar a ler jornal. Agora, tenho que focar no meu trabalho. Que merda será que eu fiz dessa vez?

Quando cheguei na agência, ninguém quis olhar na minha cara. A secretária grunhiu que o João Gordão estava me esperando na sala dele. E foi pra lá que eu fui…
– Feche a porta, Lúcio.
– Aconteceu alguma coisa, João?
– Você não lê jornal?
– É a segunda pessoa que me pergunta isso hoje…
João não me respondeu nada, apenas ligou o super telão da sala e me mostrou uma conhecida página da internet: XVIDEOS.
– Vamos ver um pouco de pornô – falou João casualmente.
Claro, eu entendi qual era o problema.
Quando João deu play em um vídeo do site, vi o meu amigo de faculdade em um dos seus filmes clássicos: O Ninja do Sexo.
– Quer dizer que o senhor infiltrou um ator pornô na propaganda política do nosso candidato…
– Não é isso, João. A gente precisava de um Japa com cara de TI, era urgente, achei que o Akira se encaixava no perfil e…
-Imbecil – bateu na mesa aquele gordo mala.
Ao mesmo tempo, a porta da sala de João se abriu. Era o puxa-saco mor daquela firma, o Pacheco.
– Está funcionando, João – avisou Pacheco.
O quê? O quê? O quê está funcionando?
João deu um pique e foi até uma outra sala – onde uma equipe trabalhava concentrada nas redes sociais.
– Veja só essas arrobas – disse, quase tendo um orgasmo, Pacheco.
@amorali Ué, ator pornô também não é gente? Não vota? Não é um eleitor como vc e eu?
@fufuco3 Eu achava o Candidato um velho mala, agora ele é o meu preferido.
@tamdara69 Se o Akira for secretário da cultura, eu voto no Candidato.
@marcaomon Botando pra F@#*& com a velha política.
@larissazen Somos todos Akira!
– Nós pagamos uns influencers, youtubers e arrobas famosas para promover essa onda favorável à participação de Akira no nosso horário político. Aparentemente, está funcionando. Se a coisa continuar assim, o Candidato vai conseguir aquela tão sonhada “penetração”, com o perdão da palavra, no eleitorado jovem – explicou um pedante Pacheco.
– Ou seja, podemos crescer até 5 pontos na próxima pesquisa de intenção de votos e começar a campanha já em segundo lugar – comemorou João.
– Isso – respondeu Pacheco.
– Lúcio, liga já pro Akira. Vamos gravar um vídeo com ele. Quero que ele conte sua história de vida, quero que ele emocione o eleitorado que ainda não tem candidato. Vamos promover um bate-papo entre o Candidato e essa maravilhoso ator pornô.
Pois é, eu conheço a história do Akira. Ele foi um aluno brilhante no colégio e na faculdade de jornalismo. No terceiro ano, foi fazer uma matéria para o jornalzinho experimental da faculdade em um set de filmes adultos. Como qualquer garoto, se encantou com aquilo, com as atrizes, com a libertinagem, com todas as possibilidades daquela vida de sexo e luxúria. Acho que o pornô liberou uma energia que a educação rígida e extremamente conservadora havia represado dentro dele. Meses depois daquela reportagem, Akira largaria a faculdade e iniciaria uma brilhante carreira no cinema. Além do “Ninja do Sexo”, ele fez filmes como o “Sushiman Erótico”, o “Pokemon Quer Mamar” e o meu preferido, o “Comendo Gostoso de Hashi”. A família dele, claro, se afastou pra sempre – o que deve dar uma bela história dramática. Acho que a mãe era professora de Kumon; o pai, o pai era um engenheiro respeitável. Akira também dizia que o avô foi um importante membro da Yakuza, mas isso eu não sei se é verdade.
Liguei para o Akira e dei as boas-novas. Ele se divertiu com a proposta – como sempre.
Depois, João me chamou de volta para a sala dele. Achei que seria esculachado “and” demitido. Mas…
João sacou um retrato debaixo de uma papelada e jogou na minha frente.
– Sabe quem é?
– Alguém que é apaixonado por mim desde a sexta série!
– O quê?
– Uma piada…
Não, eu não sabia de quem era a foto na minha frente.
– Esse aí é o Ricardinho, 20 anos, marombadinho, da turma do jiu-jitsu e coisa e tal, já foi pego com maconha, já bateu em travesti, já tirou racha em avenida movimentada, já…
– Que prodígio…
– Nada disso seria problema se o dito-cujo não fosse filho do Candidato.
– Ah…
– Ricardinho é uma bomba-relógio. E agora, com o nosso crescimento nas pesquisas, a mídia vai começar a fuçar e ficar de olho no rapaz. Vai tentar detonar a bomba, sacou?
– Tá, mas o que eu tenho a ver com isso.
– A partir de agora você será a babá do bebezão. Quero você seguindo de perto os passos do garoto, quero você na mesma balada que ele for, quero você amigo dele, quero você no carro dele e, se for preciso, na cama dele. Você vai colar no menino e não deixar ele se meter em confusão, vai limpar a barra dele quando for preciso e não deixar vazar nada pra repórter nenhum, entendeu?
– Desculpe, João. Isso não tem nada a ver com meu trabalho. Eu sou…
– Você é o que eu quiser! Porra, Lúcio! Você me coloca um ator pornô na campanha e ainda fica de frescura pro meu lado? É pegar ou largar… o emprego!
– Mas…
– Não tem. Ou pega ou rua!
Peguei. Não sei bem por quê? Mas peguei. Podia ter chutado tudo. Mas decide ficar. Escolhi pagar minhas contas sem dor de cabeça. A partir de agora, quando meu telefone tocar, deve ser um chamado para seguir o tal do Ricardinho em alguma noitada. Acho que não tenho saúde pra isso. Se o moleque mijar fora da bacia for jogar logo a real. Vou pedir colaboração, vou dar meu jeito. Seja lá que jeito for.
Fiz um caminho mais longo dessa vez. Ao invés de ir direto pra casa, quis pegar a Marginal e passar pelo rio Tietê. Logo na altura da ponte do Limão, dois carros de bombeiro interditavam uma das faixas. Um homem estava sendo retirado do rio – provavelmente morto. O Lino tem razão, o mundo não anda nada bom de cabeça.
Segui o meu caminho.
Ao imbicar meu carro na garagem do prédio, reconheci o homem que estava em pé na frente do meu portão. Um sujeito inesquecível. O careca de bigodinho fino, o detetive Isaías.
Ele me acenou sorridente. Quis atropelá-lo. Só quis. Mas desci do carro e educadamente perguntei o que ele queria comigo.
Isaías me entregou um envelope pardo e disse: “Frederica não contou tudo. Acho que você se interessaria em saber o que tem dentro desse envelope. Acredite, é muito interessante”.

Continua

Trilha sonora do episódio 5:

Leia aqui os episódios 1, 2, 3 e 4

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