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O passado é uma coisa que a gente carrega com certo desconforto, carrega como se fosse uma mala pesada e sem rodinhas. O melhor seria viver tudo no presente, melhor seria ter a memória de um passarinho distraído e rouco. Esquecer é uma bênção. Mas, para a maioria de nós, o passado é uma coisa que não se pode deixar pra lá. Temos que usar o muque e carregá-lo tal qual uma bagagem avariada. Nunca é agradável. E, eventualmente, pode machucar.

Não era o caso específico daquela foto. Daquela que a dona Frederica tirou da bolsa e me mostrou no café da livraria.

Eu não lembrava da menina.

O retrato de uma criança desconfortável: eu fantasiado de caipira, com cara de quem preferiria ser obrigado a comer um bife de fígado do que estar ali – subjugado ao capricho de algum(s) adulto (s) e de braços dados com uma magricela de aparelhos nos dentes.

Posso imaginar o contexto. Posso imaginar a professorinha querendo ser democrática e dizendo aos alunos: “Escolham seus pares”. Não, não, maldita escola construtivista! A democracia não foi feita para crianças de 8 anos.

Também posso me imaginar fugindo das tais escolhas, tentando me enfiar embaixo de alguma carteira, achando tudo aquilo um saco. Aos 8 anos, eu não gostava de meninas, não gostava de Festa Junina e ainda não conhecia as delícias do quentão ou do vinho quente.

Depois, no dia da quadrilha, sou capaz de enxergar uma mãe orgulhosa tirando fotos da filha – que estava de braços dados com o “namoradinho”.

– Dona Frederica, a senhora me perdoa, mas eu não lembro da sua filha…

Então, a mulher suspirou e colocou novamente as mãos dentro da bolsa. Agora, claro, seria um revólver.

Não, era outra foto.

Finalmente, eu tinha algumas lembranças daquele retrato: era final de ano, eu estava na sexta série (ou sétima) e participava de uma viagem de confraternização. Acho que a turma foi passar um fim de semana em uma fazenda no interior de São Paulo. Sim, foi isso, uma excursão de escola.

Na foto que Frederica estava me mostrando, eu aparecia, de novo, ao lado de uma garota; e, de novo, eu estava emburrado – contrastando com a felicidade aparente da menina.

Sim, eu lembro da filha de Frederica. Não exatamente dela, mas de tudo o que envolve essa última foto. Aos 13 anos, nutria uma secreta paixão por uma coleguinha de classe. Se não me engano, chamava Mariana. Era uma loirinha, toda arrumadinha, perfeitinha, uma típica personagem daqueles filmes bobos da Sessão da Tarde. Nossa, eu queria muito namorar aquela menina (como será que ela está agora?).

Daí, naquela época, a gente ainda brincava de “beijo, abraço ou aperto de mão – versão on fire”. Pensem, era a oportunidade que um moleque normalzão tinha de beijar a loirinha mais bonita da escola (nos anos 80 era assim mesmo). Para que isso acontecesse, fiz um ‘bem bolado’ com um colega: ele iria pressionar o meu rosto quando a garota da vez fosse a Mariana.

Então, com os olhos tapados pela mão do colega, fui respondendo às perguntas: “É essa?”, “É esse?”…

Ia dizendo “não”, “claro que não” e “jamais”… Até sentir a mão daquele diabo fazendo pressão contra os meus olhos e gritar: “Simmm”.

– Beijo, abraço ou aperto de mão? – perguntou.

– Beijo.

– No rosto ou na boca? (como já disse, era uma versão on fire da brincadeira).

– Na boca.

Ouvi risos.

O filho da mãe tinha me traído. Quando pude enxergar, a garota escolhida não era a loirinha estilo Sessão da Tarde. Era a filha do dona Frederica, a Fabiana.

Fabiana ainda continuava a mesma garota de antes, ainda era a magricela de 8 anos, ainda usava aparelhos nos dentes e, até onde eu posso supor, ainda era apaixonada por mim.

Foi um beijo rápido. Um selinho sem língua. Não significou nada. Pra mim. Depois do beijo, tiraram essa foto que dona Frederica carrega como prova inconteste da existência de Deus ou da vida em Marte.

– Lembrei. Sei quem é a sua filha…

– Alguma coisa aconteceu entre vocês nesse dia?

Não quis mentir. Nem tinha motivos.

– Um beijo. Sem língua. Um beijo só. Mais nada. Um beijo de brincadeira, um beijo de papelão.

– Mais nada? – perguntou fazendo uma cara de desconfiança.

– Nada. Nem ali, nem depois. No semana seguinte, minha família se mudou para o Rio de Janeiro. Só voltei para São Paulo na época da faculdade. Ou seja, mudei de escola, de cidade, de estado. Nunca mais vi sua filha.

Frederica torceu o rosto. Não entendi se era de discordância, estranhamento ou se aquilo era um simples espasmo.

– Não importa. Mesmo sendo só um beijo, a vida da minha filha mudou para sempre depois dele.

Tá, acho que estou no meio de um daqueles livros “água com açúcar”, em um enredo das coleções Sabrina ou preso no roteiro da próxima novela turca.

Então, vejamos: um beijo pré-adolescente transformou a vida de uma garota feia. Depois, adulta, ela ainda sentia o gosto daqueles beijo sonso. Ah, e ela também tinha se transformado em uma belíssima modelo clássica de lingerie! A partir desse ponto, a ex-feia não mediu esforços para reencontrar o seu amor de infância, contando com a ajuda da própria mãe. Sucesso!

A realidade era um tiquinho diferente. Segundo Frederica, a filha nunca mais foi a mesma depois daquela fatídica excursão (aquela do beijo, abraço ou aperto de mão). A menina desenvolveu uma espécie de obsessão pela minha figura (como é ridículo escrever isso) e me transformou em seu namorado imaginário. Os anos foram passando e o que era pra ser mais uma paixãozinha platônica foi se solidificando no coração de Fabiana. Aquele beijo foi virando argila que virou concreto que virou pedra que virou doença e destino.

Ela passou anos me esperando, anos acreditando naquele beijo murcho, mole e sem saliva.

Na faculdade, teve um namoradinho. Não durou 3 meses. Não durou porque ela não conseguia me esquecer. No emprego, formou-se em Economia, teve outro namoradinho. Não durou porque ela não conseguia me esquecer. Depois dos 30 anos, procurou ajuda profissional e foi diagnosticada de duas formas diferentes: Síndrome da Erotomania (conhecida como síndrome do amor platônico) e com a Síndrome de Münchhausen.

Na Erotomania, a pessoa se encontra convicta de que outra pessoa está secretamente apaixonada por ela. Já na síndrome de Münchhausen, os indivíduos fingem traumas psicológicos para chamar atenção ou provocar a simpatia dos demais. Em momentos diferentes, Fabiana foi diagnosticada com uma ou outra síndrome. Independente do médico ter acertado ou não, eu seria o gatilho, o culpado por qualquer sintoma.

Louca. Pensei. Mas não disse. Não tenho culpa. Pensei. Mas não disse.

“Gente, porra, ela tem quase 40 anos!” Também só pensei, sem dar um pio.

No último mês, segundo Frederica, a situação de Fabiana piorou. Ela não sai mais de casa, passa dias olhando nossas fotos do tempo do colégio, escreve longas cartas que não mostra pra ninguém e deu de repetir que ainda vai me reencontrar (repetir para o espelho, por exemplo).

Tudo isso começou no último mês, exatamente no mês em que o cometa LeBron entrou para o imaginário planetário e tornou-se uma ameaça à vida na Terra. Bullshit !

Frederica disse que tinha medo da filha fazer alguma bobagem. Acho que quis dizer “tipo se matar”. Mas não entrei nesses detalhes sórdidos da questão.

A mulher pediu para que eu aparecesse. Quem sabe, segundo ela, uma conversa franca, minha presença física ou a realidade crua, pusesse fim nessa ilusão romântica. Eu só precisava decepcioná-la. Mostrar que eu já não era mais um garoto de 13 anos, que tinha engordado, perdido algum cabelo e me transformado em um cara absolutamente sem graça. Era o pedido desesperado de uma mãe. Não havia nenhuma base científica nessa esperança. E ela já havia tentado de tudo – segundo ela.

Bom, pedi que me desse um tempo para pensar. Confessei que achava pouco eficiente e até perigoso aparecer para jantar: “Boa noite, Fabiana. Sou eu, o Lúcio, o cara que te deu um beijo natimorto na sexta série, beleza?”.

Não era melhor tirá-la de casa com a ajuda de um médico? De uma equipe médica, quero dizer. Não seria mais humano submetê-la a um tratamento sério?

Frederica disse que aguardaria minha resposta com ansiedade. Antes que ela se levantasse, perguntei como tinha me encontrado. Atrás de mim, um careca de bigodinho fino bateu no meu ombro esquerdo: “Isaías, detetive particular, ao seu dispor”.

A coisa era séria. Peguei o cartão do Isaías e pensei no meu cachorro perdido. Talvez ele fosse mais eficiente do que o morador de rua que “comprei” para procurá-lo.

– O que isso significa?

– Que eu sei tudo sobre você, Lúcio – contou Frederica.

– Tipo?

– Sabemos onde você mora – avisou Isaías.

– Que mais?

– Que trabalha com campanha política – continuou o detetive.

– Com que direito…

– Sei do seu cachorro perdido – espremeu o homem.

– (…)

– E que o senhor se separou recentemente. Coisa de uns 7, 8 meses. Portanto, pode visitar a minha filha sem nenhum tipo de constrangimento ­- arrematou Frederica.

Me senti nu. Ameaçado. Vazio. No vácuo.

– Você deve isso à minha filha. Você sabe disso…

– Eu não sei de nada.

– Vamos esperar o seu retorno… Pacificamente.

Antes de sair o detetive declarou sorrindo: “Viu a promoção de livros para colorir?”

Malditos. O que ela quis dizer com pacificamente?

Os dois saíram juntos do café. O detetive e a velha exageradamente pintada. Achei tudo estranho. Algo ainda não se encaixava. Tive medo.

Tomei mais um café, sozinho.

Comprei seis livros de colorir e fui pra casa.

A vasilha do cachorro estava cheia até a borda.

Sei bem o que é uma obsessão.

Fumei um cigarro e comecei a colorir.

Fumei tanto que não precisei jogar nem uma bituca no vaso.

Rabisquei os livros feito um Kandinsky epilético.

Pensei em como saltamos de um beijo frio para uma paixão doentia; pensei em como se pula de um encontro casual para um amor acachapante; e como pulamos do amor acachapante para o desprezo; e como…

Dormi em cima do Jardim Secreto.

E só acordei de manhã, com o toque do meu celular.

Do outro lado da linha alguém me xingava. Como sempre.

Continua.

Trilha sonora do capítulo 4:

Acompanhe o Desculpe, Foi Engano pela página do Facebook.

Leia o episódio 1.

Leia o episódio 2.

Leia o episódio 3.