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Um café com o Pacheco. Nunca imaginei que desceria tão baixo. Mas quem está na minha frente é um homem assustado, frágil, muito perto de ter um desses colapsos definitivos. Não é mais aquele Pacheco de outrora.
Ele me conta o que aconteceu enquanto “estive fora”. Não imaginava que havia sido tanto tempo. Teve o hospital, uns dias na casa da dona Frederica e um enorme espaço que eu também não consigo preencher. Talvez nunca consiga. Talvez seja melhor eu não saber mesmo.
Enfim, estou aqui tomando um café com um colega de trabalho odioso (ou ex-odioso).
Akira foi assassinado. Foram três tiros pelas costas. Quem fez os disparos foi um dos seguranças do Candidato. Akira, o ator pornô com cara de TI, estava comendo a mulher dele, do Candidato. Era de se imaginar que isso fosse acontecer. Onde já se viu, um ator pornô na campanha eleitoral…
Segundo Pacheco, a polícia já estava perto de descobrir que o Candidato era o mandante do crime. A notícia chegaria aos jornais amanhã ou depois. Literalmente, amanhã ou depois. João Gordão e todo o Staff já estavam começando a se desmobilizar. Até o fim da semana, provavelmente, o Candidato iria anunciar sua saída da campanha.  O perigo agora era a equipe ficar sem receber.
Não ouvi direito a parte da grana. Pensei no meu amigo de faculdade, no japa que foi o mais promissor estudante de jornalismo que já conheci e que terminou tendo uma carreira de sucesso no mercado dos filmes adultos.
A morte dele foi minha culpa.  Engraçado. Não. Não é engraçado. É triste. Mas sinto que a culpa foi minha. Fui eu quem meteu ele nessa. Matei meu amigo. Fui o responsável. E acho que não foi a primeira vez. Sinto culpa. Nem sei de onde vem essa culpa. Mas ela vem.

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Vou para o escritório. Tem algo que preciso perguntar ao João Gordão. Onde está o Ricardinho? Não deveria me importar. Tenho pouco a ver com ele. Mas, porra, eu conheci o menino, vi o sofrimento dele e, sei lá, despertou algum tipo de sentimento paternal.

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– O que fizeram com o menino, João?
– Virou viado agora?
– Me diz o que fizeram com o Ricardinho, por favor.
– Ele tem menos problemas do que a gente. A campanha foi pro vinagre. Perdi uma grana preta. E você, meu caro, o emprego. Então, vai pro inferno e esquece o namoradinho.
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Tentei entrar em contato com o Candidato. Queria saber do filho dele. Não consegui. Através da imprensa fiquei sabendo que Ricardinho estava morando nos EUA. Agora, com a mãe assassinada deve querer voltar ao País.

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No rádio do carro, ouço notícias sobre o cometa que passou raspando. Depois, decido passar pelo Rio Tietê. De dentro do carro, vejo equipes trabalhando. Mais um corpo é tirado do fundo do rio. Acho que Lino também está lá – no fundo do rio.  Não tenho notícias dele. Só um pressentimento. Na outra estação, um especialista fala sobre a vitória do Trump nos EUA.
Sim, o cometa não era uma má ideia.

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Em casa, Sazerac está brincando com Carla. Não, não voltamos. Ele continua me achando um sujeito patético. Mas está feliz com a volta do cachorro. Acho que vou parar de fumar; e, talvez, de preencher livros de colorir.
Sugiro que ela fique em casa. Penso em uma transa com a ex. Ela não abre nenhuma brecha. Vai embora e diz que semana que vem pretende levar o Sazerac para brincar no parque. Eu não estou convidado.
Ela vai embora e fico sozinho com o cão.
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Tarde da noite. O telefone toca. Deixo tocar. Tenho medo de atender. Da última vez, foi terrível. Quase derrubei quase todos os pratinhos. Tento deixar tocar. Não consigo. Alô?
– Ricardinho…

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Tomamos um café. Ricardinho me fala da vida. Da mãe morta. E do pai que, com tanto dinheiro, deve logo escapar da cadeia ou de qualquer outro tipo de punição. Ele quer tocar a vida longe dessa bagunça.
Me emociono.
Ele percebe.
Pergunto o que aconteceu com o pescoço dele. Ricardinho conta que tem sentido dores – piores do que aquelas que se sente com um torcicolo qualquer. Um dor tão forte, quase como se alguém estivesse torcendo o pescoço dele. Por isso essa faixa dando duas voltas, duas voltas.
Nos despedimos com um abraço.
Estou feliz em vê-lo.

***

Em algum lugar, Pazuzu bate suas asas.
Vida que segue.

Fim