abraco

Alencar me olha com espanto. Percebe minha mão no ar. Pronta para desferir um tapa. O gato mia alto. O cuco toca. O velho me pergunta o que está acontecendo. Eu, honestamente, não sei. Junior aparece do nada e me derruba no chão. Fabiana Grita. Frederica também. Isaías só observa.

Joana avisa: “O cometa passou raspando”.

A cena entre em um mode diferente. O cometa passou. LeBron foi embora. A humanidade está salva. Nenhum pratinho se quebrou. Será?

Fabiana me abraça. Um abraço de alívio. Retribuo. Uma coisa meio automática. Sem/com sentimento. Da minha boca sai um “desculpa”. Não sei porque disse isso. Ela encosta a cabeça no meu ombro e sinto sua respiração pesada. Tem uma coisa que eu gostaria de falar, mas não sei exatamente o quê. Quero ir embora.

Frederica reza alto para Pazuzu. Quem está acostumado a rezar sabe que não se tem respostas imediatas. Portanto, nada de Pazuzu.

Depois do alívio, Alencar pede para que eu me retire. Fabiana aperta minha mão com força. Está gelada. Congelada. Me lança um olhar magoado e corre para o quarto. Vai continuar com sua vida miserável.

Lamento. Mas preciso continuar com a minha própria vida miserável.

Não entendo tudo o que aconteceu aqui. Sei que fiquei um tempo no hospital, sei que me trouxeram pra cá, sei que Fabiana começou a me dizer coisas sem sentido, que disse que tínhamos um filho, que eu era daltônico, que a gente era casado…

Depois, tentei acordar Alencar. Por algum motivo inexplicável, achei que ao acordá-lo alguma coisa aconteceria e eu, finalmente, poderia me livrar dessa loucura.

Aconteceu. Mas não sei o quê.

Agora, estou aqui.

O detetive Isaías me acompanha até a porta.
– Acabou, Lúcio.
– Acabou o quê?
– Uma grande oportunidade foi perdida aqui.
– Que oportunidade.
– Você jamais entenderia.
– Talvez eu não queira entender mesmo…
– Uma pena que tenha sido assim.
– Sobre a Fabiana…
– Esquece, ela vai ficar bem.
– Mas eu…
– Sei o que te aflige. Esquece, não aconteceu. Você nunca encostou em Fabiana. Não nessa narrativa.
– Que narrativa?
– Sai daqui. Você já tem a resposta que precisa e merece.

Não quis falar mais nada. Isaías tinha razão. Eu não precisava de respostas. Andei até o carro. Olhei no retrovisor, ele não estava mais lá. Mesmo o casarão não era mais o mesmo.

Sazerac sim. Ele estava abanando o rabo e paradinho na frente da casa. Abri a porta do carro e ele entrou. Foi o reencontro mais bonito que tive na vida. Queria saber dele como tinha sido sua vida de gato. Certeza, ele era o gato.

Meu celular estava no carro. Não me lembrava dele.

Eu tinha uma mensagem de texto. Uma mensagem do idiota do Pacheco.

Akira estava morto. Havia sido assassinado.

Acho que ainda não acabou.

Continua.