olhar

Era uma questão de aceitar a realidade como ela é.

Se Lúcio concordasse com o Candidato e com o demônio entortador de pescoço, o significado disso seria: “Essa é a vida real, a única possível, vou ter que lidar com um meteoro dizimando metade da população, com uma família assassinada na minha frente e mulher e filhos traumatizados”.

Ou.

Se Lúcio se mantivesse firme no propósito de ver qual é. Firme no propósito de pagar pra ver, o significado disso seria: “Essa não é uma vida de verdade, isso aqui é um simulacro de realidade. Nada do que acontecer agora vai significar alguma coisa se eu decidir deixar rolar”.

No fundo, Lúcio queria ver a outra vida. Queria gritar de uma vez: “acabem com isso”. O que ele deseja expressar era “quero viver minha outra vida – mesmo sem garantias ou informações sobre a qualidade da suposta outra vida”.

Mas tinha os olhinhos de Ricardinho. O menino era o que tinha de mais precioso. Tinha Fabiana que não merecia passar por aquilo. Tinha aquelas duas vidas lá – que entendiam menos do que ele.

Existem muitas formas de carregar uma culpa ou de se sentir um canalha.

Lúcio fez sua escolha.

Batidas na porta. Gritos.

O Candidato e Pazuzu se agitaram.

A porta estava sendo forçada.

Era a polícia e Akira. Ou melhor, Akira trouxe a polícia.

O Candidato e o demônio pareciam impassíveis. A dupla esperou a porta ser arrombada. Ela foi. Dois homens armados. Com eles, Akira. Candidato e demônio caminharam em direção aos policiais. Como era de se esperar, os policiais gritaram um clichê de filme ruim, algo como “parados”. Os dois não pararam. Os policiais atiraram. Mas as balas se desmanchavam antes de atingir o corpo daquelas duas entidades.

Os policiais tiveram suas cabeças arrancadas.

Akira ainda tentou fugir. Mas o demônio Pazuzu agarrou-o com a língua – trazendo-o para perto.

Akira teve o coração arrancado pela criatura – bem como outras partes do corpo, como o globo ocular. O Candidato chegou a chupar um dos olhos de Akira como quem chupa uma ostra. Achou salgadinho.

Com o banquete terminado, Pazuzu e Candidato voltaram para a cozinha.

Lá, na cozinha, Lúcio já havia, ele mesmo, torcido os pescoços da mulher e do filho.

Vocês sabem o que é um vórtice?

Ele voltou.

Continua.