grupo1

Ricardinho estava sentado no colo do Candidato.
E isso causou uma tormenta no corpo de Lúcio.
Fabiana e toda a família pareciam animadas com aquela presença ilustre.
Lúcio ainda tentava entender em que narrativa estava vivendo.
Frederica servia uma lasanha vegetariana para o convidado; Joana chupava uma laranja em uma tentativa patética de excitá-lo, Junior falava, meio que sozinho, sobre seu abrigo super eficaz contra o cometa; Alencar contava sobre seus incríveis projetos para melhorar a cidade e o País; e Fabiana sorria para Lúcio com amor e gratidão.
Que surpresa linda! Convidar um político importante para jantar com a própria família!
Claro, Lúcio não tinha convidado ninguém. Mas algo dentro dele dizia para que não fosse ele o espírito de porco que iria estragar aquele momento.
Além disso, foi tomado pelo amor incondicional de pai, de marido e de homem de família. Aquela era a família dele – e fazia todo o sentido. Dane-se a narrativa A, B ou C.
Só que ele viu um demônio arrancar a cabeça de um homem. E ninguém vê um demônio arrancar a cabeça de um homem à toa.
Ele precisava de respostas. Pena que sequer soubesse quais perguntas deveriam ser feitas.
Naquele momento, teve uma revelação: sua vida era como a de um equilibrista de pratos. Sua missão era fazer com que todos os pratinhos continuassem rodando. Se um primeiro pratinho for ao chão, será o caos. Outros pratos devem quebrar na sequência. Será que Lúcio está pronto para ver tudo se espatifar? Ver os caquinhos?
– Gente, eu e o Isaías precisamos conversar…
A sala de jantar ficou em silêncio. Conversar o quê?
O próprio Candidato quebrou o silêncio e disse que era verdade, que eles tinham uns segredos de campanha para debater e que se “não fosse muito indelicado”, eles fariam aquilo em outro cômodo da casa.
Junior protestou, argumentou que sempre quando fica de fora de algum segredo sofre com uma espécie de “revolução intestinal” – e que aquilo seria um problema para todos naquela casa.
A família riu unida – e deve ter sido a primeira vez que isso aconteceu naquele ambiente.
Frederica, depois de se recuperar da intervenção de Junior, ofereceu a sala para que os dois homens conversassem reservadamente. Toda a família aguardaria na sala. “Mas, por favor, não demorem. A comida vai esfriar”.
E assim, Lúcio e Isaías foram para debaixo do relógio cuco, na sala.
– Sua família é adorável, Lúcio.
– Obrigado.
– Especialmente o menino. Que garoto inteligente!
– Eu sei.
– Se você está chateado por eu ter aparecido aqui…
– Quero saber o que está acontecendo. Um demônio arrancou a cabeça de um homem…
– Isso acontece com mais frequência do que a gente imagina…
– Em que narrativa nos estamos?
– Na melhor delas. Ao menos na melhor possível…
– Não acredito em você.
– Olhe para a sua família… Em que outro lugar você teria uma família tão bonita. Um filho tão especial.
– Eu não teria em outro lugar?
– Penso que não.
– Me diga com clareza…
– As coisas são diferentes lá. Fabiana, definitivamente, não está bem. Ricardinho, bem, Ricardinho não é seu filho e tem uma vida bastante infeliz.
– Mentiroso.
-Eu não pagaria para ver.
– E você?
– Sou um amigo da família.
-E o Candidato? Quem é o Candidato na outra narrativa…
– Um figurante qualquer. A vida, qualquer vida, está repleta de figurantes. Alguns são figurantes de sorte. Outros são só sombras tristes, sombras tristes que passam. Não seja uma sombra triste que passa, Lúcio…
O cuco na parede tocou. Uma mola triste saltou para fora do relógio.
Frederica gritou que a comida estava esfriando.
Os homens na sala não ouviram e continuaram conversando.
Falou-se sobre um cometa desgovernado e um mundo despedaçado.

Continua