pneu

Atropelar um cachorro é sempre traumático. Por pior que a pessoa seja, algum sentimento de culpa há de pintar em alguma esquina da alma. Ao ver o cão se contorcendo de dor, Lúcio sentiu como se a própria vida estivesse sendo extraída do seu corpo. Quis gritar e gritou: “Sazerac”.
Pausa.
Imaginou um pote cheio de comida de cachorro no canto da cozinha. Uma cozinha que ele não reconheceu, mas imaginou que fosse sua.
Pegou o cão no colo e voltou para o carro. Talvez, se fosse rápido, tivesse tempo de salvá-lo. O carro não pegou de primeira e o cão deu um uivo tão sentido que Lúcio quis chorar.
– Calma, Sazerac…
Estranho, voltou a chamar o cachorro de Sazerac.  Por quê? Sazerac foi uma bebida que ele experimentou há uns 5 anos, em New Orleans. Ia uísque (Rye uísque), Peychaud, açúcar e absinto… Nada a ver com o cão agonizante no banco do passageiro. Ou tudo ver… De alguma forma o animal respondia ao ser chamado com o nome do cocktail.
Acelerou. O daltonismo nunca foi um problema para dirigir. Nunca foi um problema com os semáforos… Mas nervoso do jeito que estava acabou queimando alguns sinais. Ele também não notou que atrás do carro havia um pássaro/anjo/demônio que acompanhava todo o trajeto.
O cachorro latia ou uivava de acordo com as rua que Lúcio entrava. Era como se o animal quisesse indicar um caminho.  De fato, o cão estava no comando.
O celular tocou. Lúcio foi atender, mas o cão latiu mais alto. O celular continuou tocando, mas foi ignorado. Provavelmente, era o Candidato. Ou seria uma ligação do Akira? Lúcio avistou uma clínica veterinária. O cão se acalmou. O pássaro/anjo/demônio desceu sobre o capô do carro e lá ficou.
Lúcio achou melhor não descer. O cão voltou a latir. O que estava acontecendo ali? Se imaginou sentado na grama de um parque – distraído com um livro de colorir. Ao seu lado, Sazerac…
Os latidos do cão fizeram com que Lúcio saísse do transe. O pássaro/anjo/demônio parecia uma estátua sobre o capô do carro. Imóvel. Mortal. Infame. Pazuzu.
Pausa.
De dentro da clínica surgiu um homem. Ele carregava um taco de beisebol gigante e atacou o pássaro/anjo/demônio que estava sobre o capô do carro.
Houve luta. O homem chegou a cair. Teve o rosto arranhado, mas em um último esforço afastou aquela coisa com um golpe.
Assim que pássaro/anjo/demônio voou para longe, Lúcio saiu do carro com o cão nos braços.
Entraram na clínica.
O homem trancou a porta e com seus dentes brancos disse: “Ele vai voltar”.

Continua