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Podia ser fácil como atender a campainha. Abrir uma porta e dar de cara com a verdade. Melhor, dar de cara com a verdade e aceitá-la. Infelizmente, o homem de dentes brancos e o simpático cãozinho foram expulsos da frente do casarão por uma espécie de ave/anjo/demônio que os atacou.
Quando Alencar atendeu a porta, os dois não estavam mais lá. Corriam – e quase foram atropelados.
Alencar voltou para a mesa e disse apenas que “deveriam ser arruaceiros”.
Ninguém mais pensou no assunto. Nem poderia. Tão logo o jantar em família recomeçou, Junior começou a contar sobre o seu projeto de construir um abrigo anti-nuclear, anti-zumbi, anti-gente chata no porão da casa. O rapaz estava convicto  de que o cometa com nome de jogador de futebol americano iria atingir o planeta e transformar nossa vida em uma espécie de Mad Max.
Lúcio fingia que ouvia, mas só pensava em Akira.
Joana, a cunhada, manifestou-se no jantar, disse que estava de saco cheio desse papo de fim do mundo. Um começo de briga instalou-se naquela casa. Eram como crianças.
Até que Frederica quebrou o gelo perguntando do Candidato: “Isaías tem chances de ganhar essa eleição”?
Lúcio tentou brincar: “Tem, se raspar o bigode”.
Alencar comentou que Lúcio deveria convidar o Candidato para jantar na casa deles, que aquela seria uma ótima ideia para aliviar as tensões, que a família não faria feio, que ele tinha algumas sugestões para o Candidato, que…
Joana roçou as pernas dela nas pernas de Lúcio durante todo o jantar.
Mas nada de pior aconteceu.
Lúcio, Fabiana e Ricardinho foram embora. No rádio do carro, notícias sobre o campeonato de natação entre moradores de rua que o Governo do Estado estava promovendo em um Rio Tietê recentemente limpo e recuperado. Ricardinho disse que queria assistir uma competição; Fabiana achou de mau gosto; Lúcio não conseguia se lembrar de quando o Tietê tinha sido despoluído. Estava trabalhando muito e tinha perdido muita coisa.
Ao chegar em casa, tomou duas doses de uísque e foi dormir sem fazer amor com a mulher. Quanto tempo eles não faziam amor?
Sonhou com dois surdo-mudos que brigavam em um café de livraria. Entendia um pouco da linguagem dos sinais, os dois estavam discutindo sobre o anão de Game of Thrones. Acordou com o celular tocando. Atendeu correndo. Do outro lado da linha, um homem nervoso pedindo um encontro. O cara parecia preocupado. Lúcio não deu bola e disse que “aquilo deveria ser um engano”. Não era. O sujeito se chamava Lino e disse que tinha notícias sobre o gato perdido de Ricardinho.
A ligação caiu imediatamente.
Lúcio tentou retornar. Mas o celular ficou mudo.
Voltou a dormir. E não sonhou mais.
No dia seguinte, foi visitar Akira.
Sim, Akira estava chegando perto da verdade. O encontro foi tenso, mas pacífico. Os dois tinham uma vaga lembrança da amizade que os uniu na faculdade. Akira sempre foi o mais talentoso. Lúcio era o oportunista. Ainda no terceiro ano, o japonês com cara de TI foi fazer uma matéria sobre o universo pornô. Resultado: escreveu um impressionante material sobre falsificação de exames de AIDS. Descobriu que atores infectados atuavam sem camisinha – e tendo testes falsos como respaldo. A denúncia que começou num jornal de faculdade foi parar na grande mídia e Akira logo arrumou um emprego. Sem exagero, deve ser o melhor repórter do País.
Agora, chegava perto, já juntava o lé com crê dos desvios, da caixa 2, das operações no mercado negro.
– Vou pra cima – avisou Akira.
-Não faça isso – disse Lúcio, honestamente.
– Isso é uma ameaça? – perguntou Akira.
– Não. Eu estou do seu lado – argumentou Lúcio.
-Você está só do seu próprio lado, Lúcio.
– Política é um treco perigoso.
– Eu não tenho nada a perder.
– Todos temos.
– Vou pagar pra ver.
Um dia depois dessa conversa, o carro de Akira seria alvejado por dois tiros. Nenhum pegou nele. Sorte. Lúcio só soube do acontecido por uma matéria de jornal assinada pelo próprio Akira – que agora anunciava publicamente que estava sendo perseguido pelo Candidato.
A coisa já estava bastante fora do controle. Ao meio-dia, Lúcio tinha uma reunião com o Candidato e os conselheiros políticos do sujeito.
No caminho, atropelou um cachorro.

Continua